Magazine Luiza

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Livro o Ego é seu Inimigo - Como dominar seu pior adversário


O EGO É SEU INIMIGO





SUMÁRIO 

Folha de rosto 
Créditos Mídias Sociais 
Dedicatória 
O doloroso prólogo Introdução 

PARTE I - ASPIRAÇÃO

Blá, blá, blá Ser ou fazer? 
Torne-se um aprendiz 
Não seja apaixonado 
Siga a estratégia da tela em branco 
Contenha-se 
Liberte-se de seus pensamentos 
O perigo do orgulho precipitado 
Trabalho, trabalho, trabalho 
Para tudo o que vem a seguir, o ego é seu inimigo 

PARTE II - SUCESSO

Seja sempre um aprendiz 
Não conte uma história a si mesmo 
O que é importante para você? 
Arrogância, controle e paranoia 
Como administrar a si mesmo 
Cuidado com a doença do eu 
Medite sobre a imensidão 
Mantenha a sobriedade 
Para o que costuma vir a seguir, o ego é seu inimigo 

PARTE III - FRACASSO

Tempo produtivo ou tempo improdutivo? 
O esforço é suficiente 
Momentos 
Clube da Luta 
Saiba quando parar 
Tenha seus próprios critérios de avaliação 
Ame sempre 
Para tudo o que vem a seguir, o ego é seu inimigo 
Epílogo 
O que ler agora 
Bibliografia selecionada Agradecimentos 
Sobre o autor 
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INTRODUÇÃO 


O primeiro princípio é que você não deve se enganar — e que você é a pessoa mais fácil de enganar.

— RICHARD FEYNMAN 


Talvez você seja jovem e esteja transbordando ambição. Talvez seja jovem e esteja em dificuldade. Talvez tenha ganhado seus primeiros milhões, assinado o primeiro contrato, talvez tenha sido selecionado para integrar algum grupo de elite ou até já tenha conquistado o suficiente para não precisar se preocupar pelo resto da vida. Talvez esteja chocado ao descobrir o vazio que encontramos no topo. Pode ser que tenha sido encarregado de liderar outras pessoas em meio a uma crise. Talvez tenha acabado de ser demitido. Ou, quem sabe, acabou de chegar ao fundo do poço. Seja qual for sua situação, o que quer que esteja fazendo, seu pior inimigo já mora dentro de você: seu ego. “Eu, não”, você pensa. “Ninguém nunca me chamaria de egomaníaco.” Talvez você sempre tenha se visto como alguém bastante equilibrado. Entretanto, para pessoas com ambições, talentos, motivações e potencial a ser realizado, o ego vem a reboque. Justamente o que nos torna tão promissores como pensadores, executores, criadores e empreendedores e que nos leva ao topo de todos esses campos também nos torna vulneráveis ao lado mais sombrio da psique. Que fique claro que este não é um livro sobre o ego no sentido freudiano. Freud gostava de explicar o ego por meio de analogias — nosso ego montado em um cavalo, as motivações inconscientes representadas pelo animal e o ego tentando comandá-las. A psicologia moderna, por outro lado, usa a palavra “egolatria” para se referir a alguém perigosamente concentrado em si mesmo e que despreza qualquer outra pessoa. Todas essas definições são precisas, mas têm pouco valor fora do ambiente clínico. O ego ao qual nos referimos com maior frequência tem uma definição mais casual: uma crença doentia na própria importância. Arrogância. Ambição egocêntrica. Esta é a definição que este livro usará. É aquela criança petulante dentro de cada um, que prefere fazer as próprias vontades acima de tudo ou de qualquer pessoa. A necessidade de ser melhor do que, mais do que, reconhecido por, muito além de qualquer utilidade plausível — isso é o ego. É o senso de superioridade e de certeza que ultrapassa os limites da autoconfiança e do talento. É quando a noção de nós mesmos e do mundo se torna tão inflada que começa a distorcer a realidade que nos cerca. Como explicou o técnico de futebol Bill Walsh, ocorre quando “a autoconfiança se transforma em arrogância, a assertividade se torna teimosia e a segurança vira imprudência desmedida”. Esse é o ego, como alertou o escritor Cyril Connolly, que “nos atrai como a força da gravidade”. Desse modo, o ego é inimigo tanto daquilo que você quer quanto daquilo que você tem: do domínio de um ofício; do verdadeiro pensamento criativo; da capacidade de trabalhar bem em equipe; de conquistar lealdade e apoio; da longevidade; da repetição e da manutenção do sucesso. Ele repele vantagens e oportunidades. É um ímã para inimigos e erros. É Cila e Caríbdis. A maioria de nós não é “egomaníaca”, mas o ego está na raiz de todo problema ou obstáculo que se possa imaginar — tanto na razão pela qual não conseguimos vencer quanto na necessidade de vencermos o tempo todo e à custa dos outros. É o motivo pelo qual não temos o que queremos e da insatisfação após conseguir aquilo que queríamos. Não costumamos enxergar as coisas dessa maneira. Encontramos algum outro culpado por nossos problemas (na maioria das vezes, outras pessoas). Nós somos, como disse o poeta Lucrécio alguns milhares de anos atrás, o proverbial “doente que ignora a causa de sua enfermidade”. Sobretudo no caso de pessoas bem-sucedidas, que não conseguem ver o que o ego as impede de fazer, porque veem apenas as conquistas do passado. Em cada ambição e meta que temos — seja grande ou pequena —, o ego sempre tenta nos atrapalhar quando nos dedicamos por inteiro. O pioneiro CEO Harold Geneen comparou o egocentrismo ao alcoolismo: “O egocêntrico não tropeça, derrubando as coisas da mesa. Ele não gagueja nem baba. Não; em vez disso, ele se torna cada vez mais arrogante, e algumas pessoas, sem saber o que há por trás dessa atitude, confundem sua arrogância com autoridade e autoconfiança.” Pode-se dizer que eles próprios começam a fazer essa confusão, sem perceber a doença que contraíram ou que estão se matando por causa dela. Se o ego é a voz dizendo que somos melhores do que de fato somos, é possível chegar à conclusão de que ele inibe o verdadeiro sucesso ao nos impedir de realizar uma conexão direta e honesta com o mundo à nossa volta. Um dos primeiros membros dos Alcoólatras Anônimos acertou em cheio ao definir o ego como “aquilo que conscientemente nos separa de”. De quê? Tudo. As maneiras como essa separação se manifesta de modo negativo são infinitas: não conseguimos trabalhar com outras pessoas quando construímos muros. Não podemos melhorar o mundo se não entendemos nem a ele, nem a nós mesmos. Não podemos aceitar ou receber feedback quando somos incapazes de ouvir fontes externas ou não temos interesse nisso. Não conseguimos identificar oportunidades — ou criá-las — se, em vez de enxergarmos o que está diante de nós, vivemos dentro da nossa própria fantasia. Sem uma comparação acurada entre nossas habilidades e a dos outros, o que temos não é autoconfiança, mas ilusão. Se perdemos a conexão com nossas necessidades e com a dos outros, poderemos alcançar, motivar ou liderar outras pessoas? A artista performática Marina Abramović é direta: “Se você começar a acreditar na própria grandeza, será a morte de sua criatividade.” Apenas uma coisa mantém o ego por perto: o conforto. Perseguir um trabalho de qualidade — seja no esporte, na arte ou nos negócios — é, muitas vezes, aterrorizante. O ego reduz esse medo. É como um bálsamo para a insegurança. Substituindo as partes racionais e conscientes de nossa psique por vanglória e autocentralização, o ego nos diz o que queremos ouvir, quando queremos ouvir. Mas ele é uma solução de curto prazo com uma consequência de longo prazo. 


Agora, mais do que nunca, nossa cultura alimenta a chama do ego. Falar e se envaidecer nunca foi tão fácil. Podemos nos gabar de nossos objetivos para milhões de fãs e seguidores — um luxo que no passado ficava reservado a astros do rock e líderes de seitas. Podemos seguir e interagir com nossos ídolos no Twitter, ou ler livros, sites e assistir a palestras do TED, nos afogar em inspiração e validação como nunca fizemos antes (existe um aplicativo para isso). Podemos nos autointitular CEO de uma empresa que só existe no papel; anunciar boas notícias nas redes sociais e simplesmente esperar que os elogios comecem a chover; publicar artigos sobre nós mesmos em veículos de comunicação que antes eram fontes de jornalismo objetivo. Alguns fazem isso mais do que outros. Mas é apenas uma questão de intensidade. Além das mudanças tecnológicas, somos encorajados a acreditar em nossa singularidade acima de tudo. Estimulados a pensar grande, viver grande, ser memoráveis e “ousar muito”. Achamos que o sucesso requer uma visão arrojada ou algum plano arrebatador — afinal de contas, foi isso que os fundadores dessa empresa ou aquele time campeão supostamente fizeram. (Mas será que fizeram? Fizeram mesmo?) Assistimos na mídia empreendedores bem-sucedidos e pessoas que se gabam por correrem grandes riscos e então, ávidos por sucesso pessoal, tentamos dissecar esses exemplos para apreender a atitude e a postura certas. Intuímos uma relação causal que não existe. Presumimos que as consequências do sucesso são o próprio sucesso — e, em nossa ingenuidade, confundimos o subproduto com a causa. É claro que o ego deu certo para alguns. Muitos dos homens e das mulheres famosos da história eram notoriamente egocêntricos. Mas muitos dos maiores fracassos também foram consequências disso. Na verdade, as tentativas fracassadas são a maioria. Mas aqui estamos nós com uma cultura que nos encoraja a rolar os dados, a fazer a aposta, ignorando os riscos. 


Em qualquer momento da vida, as pessoas se encontram em um de três estágios. Estamos aspirando a algo — tentando abrir uma brecha no universo. Alcançamos o sucesso — talvez um pouco, talvez muito. Ou fracassamos — recente ou continuamente. A maioria de nós se encontra em fluxo nesses três estados — aspiramos até alcançarmos o sucesso, temos sucesso até fracassarmos ou até aspirarmos a mais, e depois que fracassamos podemos começar a aspirar a ou alcançar o sucesso outra vez. O ego é o inimigo a cada passo do caminho. De certo modo, ele é o inimigo da construção, da manutenção e da recuperação. Quando as coisas vêm rápido e fácil, pode ser ótimo. Mas em momentos de mudança, de dificuldade… Assim, este livro é organizado em três partes: Aspiração, Sucesso e Fracasso. O objetivo dessa estrutura é simples: ajudar a sufocar o ego antes que os maus hábitos se consolidem; substituir por humildade e disciplina as tentações do ego que surgirem quando experimentarmos o sucesso; e cultivar força e coragem, de modo que, quando o destino se voltar contra você, você não seja arruinado pelo fracasso. Resumindo, essa estrutura poderá nos ajudar a ser: 

  • humildes em nossas aspirações; 
  • generosos em nossos sucessos; 
  • resilientes em nossos fracassos. 

Isso não quer dizer que você não seja único e que não tenha nada de incrível com que contribuir em sua breve passagem por este planeta. Não quer dizer que não haja espaço para ultrapassar limites criativos, inventar, sentir-se inspirado ou ter mudanças e inovações verdadeiramente ambiciosas como meta. Pelo contrário: para fazermos essas coisas da melhor maneira e corrermos tais riscos, precisamos de equilíbrio. Como observou o quaker William Penn: “Construções que se encontram tão expostas às intempéries precisam de uma boa fundação.” 


Este livro que você tem em mãos foi escrito em torno de uma suposição otimista: seu ego não é um tipo de força que você é compelido a saciar constantemente. Ele pode ser administrado. Pode ser direcionado. Aqui, analisaremos indivíduos como William Tecumseh Sherman, Katharine Graham, Jackie Robinson, Eleanor Roosevelt, Bill Walsh, Benjamin Franklin, Belisarius, Angela Merkel e George C. Marshall. Eles poderiam ter conquistado o que conquistaram — salvado empresas que estavam à beira da falência; avançado na arte da guerra; integrado o beisebol; revolucionado o ataque do futebol americano; enfrentado a tirania; resistido bravamente ao infortúnio — se o ego tivesse tirado seus pés do chão e os deixado completamente absortos por interesses próprios? Foi seu senso de realidade e sua percepção — os quais, o autor e estrategista Robert Greene certa vez disse, devemos praticar continuamente do mesmo jeito que uma aranha faz com suas teias — que constituiu o núcleo de sua grande arte, grande escrita, grande design, grandes negócios, grande marketing e grande liderança. O que descobrimos ao estudarmos esses indivíduos é que eles têm os pés no chão, são circunspectos e inexoravelmente reais. Não que nenhum deles estivesse completamente livre do ego. Mas eles sabiam restringi-lo, canalizá-lo e incorporá-lo quando era importante. Eles eram, ao mesmo tempo, grandes e humildes. Espere um momento, mas fulano e sicrano tinham um grande ego e foram bem-sucedidos. O que dizer de Steve Jobs? E Kanye West? Podemos tentar racionalizar os piores comportamentos apontando as exceções. Mas ninguém é realmente bem-sucedido porque é lunático, obcecado pelos próprios interesses e desconexo do restante. Mesmo que esses traços estejam relacionados ou associados a certos indivíduos famosos, o mesmo pode ser dito de outras características: vício, abuso (ou autoabuso), depressão, mania. Na verdade, o que vemos quando estudamos essas pessoas é que elas fizeram seu melhor trabalho nos momentos em que combateram esses impulsos, distúrbios e defeitos. Somente quando está livre do ego e das experiências passadas é que alguém pode usar todo o seu potencial. Por isso, também vamos analisar indivíduos como Howard Hughes, o rei persa Xerxes, John DeLorean, Alexandre, o Grande, e todas as parábolas sobre outras pessoas que se desconectaram da realidade e, no processo, deixaram claro como o ego pode ser perigoso. Analisaremos as valiosas lições que aprenderam e todo o sofrimento e autodestruição com que tiveram que arcar. Veremos com que frequência até mesmo as pessoas mais bem-sucedidas vacilam entre a humildade e o ego, bem como os problemas que isso causa. Quando eliminamos o ego, o que nos resta é a realidade. O que substitui o ego é a humildade — sim, mas uma humildade e uma confiança sólidas. Enquanto o ego é artificial, esse tipo de confiança consegue se sustentar. O ego é roubado. A confiança é conquistada. O ego é autoincensado, sua arrogância é um artifício. A confiança nos envolve, o ego nos manipula. É a diferença entre um remédio potente e um veneno. Como você verá nas páginas seguintes, a autoconfiança transformou um general despretensioso e subestimado no principal combatente e estrategista da América durante a Guerra Civil. Contudo, depois da mesma guerra, o ego levou um general do topo do poder e da influência à destruição e à ignomínia. Em certas circunstâncias, o ego transforma uma cientista alemã calada e séria não apenas em um novo tipo de líder, mas em uma força da paz. Em outras, arrebata dois engenheiros diferentes mas igualmente brilhantes do século XX e os arremessa em um redemoinho de badalação e notoriedade antes de jogar suas esperanças contra as rochas do fracasso, da falência, do escândalo e da loucura. O ego foi capaz de guiar um dos piores times da história da NFL, Liga Nacional de Futebol Americano, até o Super Bowl ao longo de três temporadas, para então transformá-lo em uma das dinastias mais dominantes do esporte, ao passo que inúmeros técnicos, políticos, empreendedores e escritores superaram adversidades semelhantes apenas para sucumbir à probabilidade e repassar a coroa para outra pessoa. Algumas pessoas aprendem a ter humildade. Outras escolhem o ego. Algumas estão preparadas para as vicissitudes do destino, tanto as positivas quanto as negativas. Outras não estão. O que você escolherá? Quem você será? Você pegou este livro porque sente que em algum momento precisará responder a essa pergunta, seja de maneira consciente ou não. Bem, aqui estamos. Vamos em frente. 


ASPIRAÇÃO 



Nesse estágio, estamos dispostos a fazer uma coisa. Temos um objetivo, um chamado, um novo começo. Cada grande jornada começa aqui — no entanto, muitos de nós nunca chegarão ao destino pretendido. O ego, na maioria das vezes, é o culpado. Nós nos fortalecemos com histórias fantásticas, fingimos ter entendido tudo, deixamos nossa estrela brilhar só para então se apagar, e não fazemos ideia de por que isso aconteceu. Esses são os sintomas do ego. Sua cura são a humildade e a realidade. 




Ele é um cirurgião ousado, dizem, cujas mãos não tremem ao fazer uma operação em si mesmo; e ele costuma ser igualmente ousado ao não hesitar em erguer o misterioso véu da auto ilusão, que esconde de sua visão as deformidades da própria conduta. 

— ADAM SMITH 


SEJA QUAL FOR SUA ASPIRAÇÃO. O EGO É SEU INIMIGO...


Em algum momento por volta do ano 374 a.C., Isócrates, um dos professores e retóricos mais conhecidos de Atenas, escreveu uma carta para um jovem chamado Demônico. Isócrates havia sido amigo do pai recém-falecido do rapaz e queria lhe dar alguns conselhos sobre como seguir o exemplo de seu pai. Os conselhos abrangiam tanto a vida prática quanto a moralidade — todos comunicados através do que Isócrates descreveu como “máximas nobres”. Em suas palavras, eram “preceitos para os anos vindouros”. Tal qual muitos de nós, Demônico era ambicioso. Foi isso que levou Isócrates a lhe escrever, pois o caminho da ambição pode ser perigoso. Isócrates começou informando o jovem de que “nenhum adorno lhe cai tão bem como a modéstia, a justiça e o autocontrole; visto que essas são as virtudes por meio das quais, como todos os homens concordam, a natureza do jovem é refreada”. “Pratique o autocontrole”, ele disse, alertando Demônico sobre o perigo de se deixar levar pela força do “temperamento, do prazer e da dor”. E “abomine bajuladores do mesmo modo que faria com trapaceiros; pois que ambos, conquistada a confiança, ferem quem neles confia”. Isócrates queria que ele fosse “afável em seu trato com aqueles que o abordarem, e jamais soberbo; pois que até os escravos têm dificuldade de suportar o orgulho do arrogante” e “lento na deliberação, mas rápido na execução de suas decisões”, acrescentando que “a melhor coisa que temos em nós é o bom julgamento”. Treine constantemente seu intelecto, ele instruiu, “pois o que há de mais grandioso na menor das bússolas é uma mente sã em um corpo humano”. É possível que alguns desses conselhos soem familiares, já que dois mil anos depois eles chegaram a William Shakespeare, que costumava alertar contra o ego desenfreado. Usando essa mesma carta como modelo em Hamlet, Shakespeare coloca as palavras de Isócrates na boca do personagem Polônio em um diálogo com seu filho Laertes. O discurso, caso você não conheça, termina com esta pequena estrofe: 

E, acima de tudo, sê fiel a ti mesmo 
Pois então, como a noite e o dia, 
Tu não poderás ser falso para com homem nenhum. 
Adeus. Que minha bênção amadureça isso em ti! 

As palavras de Shakespeare, por sua vez, chegaram a um jovem oficial militar dos Estados Unidos chamado William Tecumseh Sherman, que viria a se tornar talvez o maior general e estrategista daquele país. É possível que ele nunca tenha ouvido falar de Isócrates, mas amava a peça e inúmeras vezes citou esse mesmo discurso. Assim como o pai de Demônico, o de Sherman morreu quando ele era ainda muito jovem. E como Demônico, ele foi tomado sob a proteção de um homem mais sábio e mais velho, Thomas Ewing, um amigo de seu pai que logo iria se tornar um senador norte-americano. Ewing adotou o menino e o criou como se fosse seu filho. O interessante a respeito de Sherman é que, apesar de ter um pai tão influente, era quase impossível prever que suas realizações extrapolariam o âmbito regional — e muito menos que um dia ele tomaria a decisão sem precedentes de recusar a presidência dos Estados Unidos. Ao contrário de Napoleão, que surgiu do nada e desapareceu fracassado de forma igualmente rápida, a ascensão de Sherman foi lenta e gradual. Ele passou os primeiros anos de sua vida em West Point, e depois, no exército. Nos primeiros anos de serviço militar, percorreu quase todo o território dos Estados Unidos a cavalo, aprendendo lentamente a cada parada. Assim que irromperam os primeiros conflitos da Guerra Civil, Sherman seguiu para o leste a fim de se apresentar como voluntário e logo foi empregado na Batalha de Bull Run, uma derrota particularmente desastrosa para a União. Beneficiando-se da grande escassez de lideranças, ele foi promovido a general de brigada e convocado para uma reunião com o presidente Lincoln e seu principal conselheiro militar. Porém, em diversas ocasiões, Sherman exibiu autonomia suficiente para traçar estratégias e planos diretamente junto ao presidente, mas no final da viagem fez um estranho pedido: só aceitaria a promoção com a garantia de que não teria de assumir um cargo mais alto na hierarquia. Lincoln poderia lhe dar sua palavra em relação a isso? Com todos os outros generais pedindo as maiores patentes e o máximo possível de poder, o presidente concordou de bom grado. Àquela altura, Sherman sentia-se mais confortável como o segundo em comando. Ele achava que conhecia bem as próprias capacidades e que esse papel lhe caía melhor. Você consegue imaginar uma pessoa ambiciosa recusando a chance de avançar em suas responsabilidades porque quer estar preparada para elas? Isso é mesmo tão louco assim? Não que Sherman sempre tenha sido o modelo perfeito do comedimento e da ordem. No início da guerra, encarregado de defender o estado de Kentucky com um número insuficiente de tropas, sua obsessão e sua tendência de duvidar de si mesmo se uniram de um modo perverso. Gritando furiosamente por estar sem recursos, incapaz de enxergar para além dos próprios medos, paranoico em relação aos movimentos do inimigo, ele perdeu a compostura e falou de maneira imprudente com muitos jornalistas. Na controvérsia que se seguiu, foi temporariamente removido do comando. Precisou de semanas para se recuperar. Foi um dos poucos momentos em que sua carreira chegou ao limiar da catástrofe, pois de resto sua trajetória se caracterizou pela ascensão contínua. Foi depois desse breve tropeço — e de ter aprendido com ele — que Sherman de fato deixou sua marca. Por exemplo, durante o cerco de Fort Donelson, ele ocupou, tecnicamente, um posto superior ao do general Ulysses S. Grant. Enquanto os outros generais de Lincoln brigavam entre si por poder e reconhecimento pessoal, Sherman abriu mão da patente, preferindo de bom grado ajudar e fortalecer Grant em vez de dar ordens. “Este é o seu show”, disse Sherman a Grant em um bilhete que acompanhou o carregamento de suprimentos; “se eu puder ajudar de algum modo, mande me chamar.” Juntos, eles foram os responsáveis por uma das primeiras vitórias da União na guerra. Construindo seu sucesso, Sherman começou a promover sua famosa Marcha ao Mar — um plano estrategicamente corajoso e audaz, nascido não de um gênio criativo, mas sim do conhecimento profundo da topografia que ele explorara e estudara como um jovem oficial no que outrora era considerado um inútil posto avançado nos confins do país. Sherman, então, tinha confiança em pontos que antes tratara com cautela. Mas, ao contrário de tantos outros que alimentam grandes ambições, ele conquistou essa aptidão. Enquanto traçava um caminho de Chattanooga a Atlanta, e depois de Atlanta até o mar, ele se esquivou de batalhas tidas como inevitáveis, uma após outra. Qualquer estudante da história militar pode enxergar como a mesma invasão, se motivada pelo ego e não por um senso exato de propósito, poderia ter tido um fim muito diferente. Seu senso de realidade lhe permitiu ver um caminho através do Sul que os outros julgavam impossível. Toda a sua teoria de guerra de manobra repousava na decisão de evitar deliberadamente ataques frontais ou demonstrações de força na forma de batalhas campais, bem como ignorar as críticas feitas com o objetivo de provocar uma reação. Ele não prestou atenção em nada disso e se ateve ao seu plano. No fim da guerra, Sherman era um dos homens mais famosos dos Estados Unidos, e mesmo assim não buscou cargos públicos, não demonstrou interesse pela política, desejando apenas fazer seu trabalho e um dia se aposentar. Dispensando os constantes elogios e atenções característicos de tamanho sucesso, escreveu um alerta para seu amigo Grant: “Seja natural, seja você mesmo, e essas lisonjas serão como a brisa passageira do mar em um dia quente de verão.” Um dos biógrafos de Sherman captou o homem e suas realizações únicas em uma passagem notável. É por causa dela que ele serve de modelo nesta fase da nossa escalada. 

Entre os homens que ascendem à fama e à liderança, podemos reconhecer dois tipos: aqueles que acreditam em si mesmos desde o berço e aqueles em que isso se desenvolve lentamente, dependendo de realizações concretas. Para os homens do último tipo, seu próprio sucesso é uma surpresa constante, e seus frutos são os mais deliciosos, ainda que sejam saboreados de maneira prudente e com a desconfiança inquietante de que tudo não passa de um sonho. Nessa dúvida está a verdadeira modéstia, e não a dissimulação da autodepreciação insincera, mas a modéstia da “moderação”, no sentido grego. É aprumo, não pose. 

Devemos nos perguntar: se a crença em si mesmo não se baseia em realizações concretas, então em que se baseia? Quando estamos apenas começando, muitas vezes a resposta é em nada. Ego. E é por isso que assistimos com tanta frequência a ascensões incríveis seguidas de quedas calamitosas. Então, que tipo de pessoa você será? Como todos nós, Sherman precisou equilibrar talento, ambição e intensidade, sobretudo quando era jovem. Balancear com proeza essa equação foi, em grande parte, o motivo por que ele conseguiu administrar o sucesso que no final das contas modificou sua vida. É provável que isso soe estranho. Enquanto Isócrates e Shakespeare desejavam que fôssemos independentes, automotivados e governados por princípios, a maioria de nós foi treinada para fazer o oposto. Nossos valores culturais quase tentam nos tornar dependentes da validação e da ideia de merecimento e governados por nossas emoções. Durante uma geração, pais e professores se concentraram no desenvolvimento da autoestima de todos. Daí em diante, os temas de nossos gurus e de nossas figuras públicas tinham como objetivo quase que exclusivo nos inspirar, encorajar e garantir que poderíamos fazer qualquer coisa que nos passasse pela cabeça. Na realidade, isso nos enfraquece. Sim, você, com todo seu talento e potencial de “menino prodígio” ou de “garota que vai longe”. Damos por certo o seu potencial. Foi por isso que você conseguiu a vaga na universidade de prestígio que hoje frequenta, que conseguiu o financiamento para o seu negócio, que foi contratado ou promovido, que qualquer oportunidade que possa ter tido caiu em seu colo. Como disse Irving Berlin: “O talento é o ponto de partida.” A questão é: você vai conseguir extrair o máximo dele? Ou ele será seu pior inimigo? Você vai apagar a chama que estava começando a crescer? O que vemos em Sherman é a conexão profunda de um homem com a realidade. Era um homem que veio do nada e realizou coisas grandiosas, sem nunca considerar as honras que recebeu como um direito seu. Na verdade, ele costumava ceder as honras aos outros, e estava mais do que satisfeito em contribuir com um time vencedor, mesmo que isso implicasse em menos crédito ou fama para si mesmo. É triste pensar que gerações de jovens aprenderam sobre o glorioso ataque de cavalaria de Pickett, um ataque dos Confederados que fracassou, enquanto o modelo de Sherman, um realista tranquilo e nada glamouroso, foi esquecido — ou, pior ainda, difamado. Pode-se dizer que a capacidade de autoavaliar nossas próprias habilidades é o maior talento de todos. Sem ela, o aperfeiçoamento se torna impossível. E, sem dúvidas, o ego sempre dificulta cada passo que se dá nesse sentido. É claro que é mais agradável nos concentrarmos em nossos talentos e pontos fortes, mas aonde isso nos leva? A arrogância e a concentração exclusiva no “eu” inibem o crescimento. O mesmo pode ser dito da fantasia e da “visão”. Nesta etapa, você deve praticar olhar para si mesmo a uma pequena distância, cultivando a capacidade de enxergar além dos próprios pensamentos. O distanciamento de si mesmo é um antídoto natural contra o ego. É fácil se envolver emocionalmente e se encantar com o próprio trabalho. Todo e qualquer narcisista pode fazer isso. O que é raro não é o talento, a habilidade ou a confiança em seu estado bruto, mas a humildade, a diligência e o autoconhecimento. Para que seu trabalho seja verdadeiro, ele precisa provir da verdade. Se você deseja que seu sucesso seja mais do que uma centelha efêmera, precisa estar preparado para se concentrar a longo prazo. Aprenderemos que, apesar de pensarmos grande, precisamos agir e viver pequeno se quisermos conquistar o que buscamos. Porque, se nos concentrarmos na ação e na educação, deixando de lado a validação e o status, nossa ambição não será grandiosa, mas iterativa — um pé na frente do outro, aprendendo, crescendo e se dedicando. Com sua agressividade, intensidade, autocentramento e autopromoção sem limites, nossos concorrentes não se dão conta do risco a que submetem os próprios esforços (para não mencionar a sanidade). Nós desafiaremos o mito do gênio confiante, que não conhece a dúvida nem a introspecção, assim como desafiaremos o mito do artista sofrido e torturado que precisa sacrificar a saúde em nome do trabalho. Enquanto eles estão desconectados da realidade e das outras pessoas, nós estaremos profundamente conectados, conscientes e aprendendo com tudo. Fatos são melhores do que sonhos, como disse Churchill. Embora compartilhemos com muitos outros uma visão de grandeza, compreendemos que nosso caminho rumo a ela é muito diferente do deles. No rastro de Sherman e Isócrates, entendemos que o ego é nosso inimigo nessa jornada, de modo que, quando alcançarmos o sucesso, ele não nos afundará, mas nos tornará mais fortes. 

BLÁ, BLÁ, BLÁ 



Aqueles que sabem não falam. Aqueles que falam não sabem.
 
— LAO TZU 

Em sua famosa campanha de 1934 para o governo da Califórnia, o autor e ativista Upton Sinclair tomou uma atitude incomum. Antes da eleição, publicou um pequeno livro intitulado I, Governor of California and How I Ended Poverty [Eu, governador da Califórnia, e como acabei com a pobreza], em que resumia, no pretérito, as brilhantes políticas que empregara como governador… cargo que ainda não conquistara. Foi uma estratégia nada ortodoxa para uma campanha igualmente diferente, cujo intuito era lançar mão do ponto mais forte de Sinclair — como autor, ele sabia que conseguiria se comunicar com o público de um jeito que os outros não conseguiam. Acontece que a campanha de Sinclair não parecia nada promissora quando ele publicou o livro. Mas os observadores da época identificaram imediatamente o efeito que a publicação teve — não nos eleitores, mas no próprio Sinclair. De acordo com as palavras de Carey McWilliams ao escrever a respeito da campanha do amigo quando ela já degringolava: “Upton não apenas percebeu que seria derrotado, mas pareceu ter perdido o interesse pela campanha. Naquela vívida imaginação que tinha, ele já havia atuado no papel de ‘Eu, governador da Califórnia…’, então por que se incomodar em vivê-lo na vida real?” O livro foi um campeão de vendas, enquanto a campanha foi um fracasso. Sinclair perdeu por algo como 250 mil votos (uma margem de mais de 10 pontos percentuais); ele foi dizimado no que, provavelmente, foi a primeira eleição moderna. Não há dúvidas do que aconteceu: sua fala passou à frente da campanha, e a determinação para chegar ao outro lado acabou. A maioria dos políticos não escreve livros como aquele, mas se precipita da mesma maneira. É uma tentação que todos conhecemos: a de substituir a ação por palavras e por alarde. Uma caixa de texto em branco: “No que você está pensando?”, pergunta o Facebook. “O que está acontecendo?”, questiona o Twitter. Tumblr. LinkedIn. Nossa caixa de e-mails, nossos iPhones, a seção de comentários no fim do artigo que você acabou de ler. Espaços em branco, implorando para serem preenchidos com pensamentos, fotos e histórias. Preenchidos com o que vamos fazer, com as coisas que deveríamos ou poderíamos ser, com o que esperamos que aconteça. É a tecnologia pedindo, provocando, solicitando a fala. Quase universalmente, o tipo de performance que apresentamos nas redes sociais é positiva. Na maioria das vezes, é “Vou contar como as coisas estão indo bem. Veja como sou incrível”. E raramente é a verdade: “Sinto medo. Estou com dificuldades. Não sei.” No início de qualquer jornada, nós nos sentimos animados e nervosos. Então, buscamos conforto externo, e não interno. Todos nós temos um lado fraco que — feito um sindicato — não é exatamente malintencionado, mas, ainda assim, no final do dia quer receber o máximo de crédito e atenção pública por ter feito o mínimo. Nós chamamos esse lado de ego. Emily Gould, escritora e antiga blogueira do Gawker — se já existiu alguma Hannah Horvath na vida real, é ela —, percebeu isso durante sua luta de dois anos para publicar um romance. Embora tenha conseguido um acordo de seis dígitos para a publicação do livro, ela ficou estagnada. Por quê? Estava ocupada demais “passando muito tempo na Internet”. 

Na verdade, não consigo me lembrar de mais nada que eu tenha feito em 2010. Eu publicava no Tumblr, escrevia tweets, rolava a barra. Isso não me rendeu nenhum dinheiro, mas parecia trabalho. Eu justificava esses hábitos para mim mesma de várias maneiras. Estava construindo a minha marca. Blogar era um ato criativo — até mesmo a ação de “curadoria” de republicar o post de outra pessoa era um ato criativo, de certa forma. Isso era a única coisa criativa que eu estava fazendo. 

Em outras palavras, ela fez o que muitos de nós fazemos quando estamos assustados ou intimidados por um projeto: ela fez tudo, exceto se concentrar no necessário. O romance propriamente dito, que ela deveria estar escrevendo, ficou completamente estacionado. Durante um ano. Era mais fácil falar sobre escrever, fazer as coisas empolgantes relacionadas à arte, à criatividade e à literatura, do que se comprometer com o ato em si. E ela não é a única. Alguém recentemente publicou um livro chamado Working On My Novel [Trabalhando em meu livro] cheio de publicações das redes sociais de escritores que obviamente não estão trabalhando em seus livros. Como tantos atos criativos, escrever é difícil. Sentar-se, começar a escrever, ficar furioso consigo mesmo, furioso porque o material não está bom o suficiente e você não está bom o suficiente. Aliás, muitos empreendimentos valiosos que iniciamos são dolorosamente difíceis, seja programar uma nova startup ou dominar uma profissão. Mas ficar de blá-blá-blá é sempre fácil. Parece que nós pensamos que o silêncio é um sinal de fraqueza, que ser ignorado equivale à morte (o que é verdade, no que diz respeito ao ego). Então, nós falamos, falamos, falamos como se a nossa vida dependesse disso. Na verdade, silêncio é força — sobretudo no início de uma jornada. Como alerta o filósofo Kierkegaard (por acaso, alguém que detestava os jornais e sua ladainha): “A mera tagarelice antecipa a fala real, e expressar o que ainda está no pensamento enfraquece a ação por antecipá-la.” E é isso que é tão traiçoeiro na fala. Qualquer um pode falar de si. Até uma criança sabe jogar conversa fora e tagarelar. A maioria das pessoas se sai bem na promoção e nas vendas. Então, o que é escasso e raro? O silêncio. A capacidade de, deliberadamente, manter-se fora da conversa e subsistir sem a sua validação. O silêncio é o descanso dos fortes e dos que têm confiança em si. Sherman tinha uma boa regra que tentava seguir: “Nunca se justifique pelo que pensa ou faz, a não ser que seja preciso. Talvez, depois de algum tempo, uma explicação melhor simplesmente apareça na sua cabeça.” O grande jogador de beisebol e futebol americano Bo Jackson decidiu que queria conquistar duas coisas como atleta na Universidade de Auburn, no Alabama: ele ganharia o Troféu Heisman e seria o primeiro convocado pela NFL. Você sabe a quem ele contou isso? Só à namorada. A flexibilidade estratégica não é o único benefício do silêncio enquanto os outros tagarelam. Também é psicologia. O poeta Hesíodo tinha isso em mente quando disse: “O maior tesouro de um homem é uma língua econômica.” A fala nos exaure. Falar e fazer brigam pelos mesmos recursos. Pesquisas mostram que, embora a visualização de um objetivo seja importante, depois de algum tempo nossa mente começa a confundi-la com o progresso propriamente dito. O mesmo se aplica à verbalização. Observou-se que até mesmo o hábito de falarmos sozinhos enquanto trabalhamos em problemas difíceis diminui a concentração e a chance de fazermos descobertas importantes. Depois de passarmos muito tempo pensando, explicando e falando sobre uma tarefa, somos levados a pensar que estamos mais perto de sua solução. Ou pior, quando as coisas ficam difíceis, achamos que podemos descartar todo o projeto, porque já investimos tudo o que podíamos nele, apesar de isso, obviamente, não ser verdade. Quanto mais difícil a tarefa, mais incerto será o resultado, mais custosa será a fala e mais longe estaremos de uma responsabilização concreta. A fala esgota a energia de que necessitamos desesperadamente para conquistar o que Steven Pressfield chama de “Resistência” — o obstáculo existente entre nós e a expressão criativa. O sucesso requer 100% dos nossos esforços, e a fala filtra parte desses esforços antes mesmo de podermos usá-los. Muitos de nós sucumbem a essa tentação — sobretudo quando nos sentimos sobrecarregados ou estressados, com muito trabalho pela frente. Em nossa fase de construção, a resistência será uma fonte constante de desconforto. Falar — ouvir a si mesmo ou se apresentar na frente de uma plateia — é quase uma terapia. Acabei de passar quatro horas falando sobre determinada coisa. Isso não conta? A resposta é não. Fazer um bom trabalho é uma batalha. É exaustivo, é desmoralizante, é assustador — nem sempre, mas podemos nos sentir assim quando estamos mergulhados nele. Falamos para preencher o vazio e a incerteza. “O vazio”, disse Marlon Brando, um ator bastante calado, se é que isso existe, “é aterrorizante para a maioria das pessoas”. É quase como se fôssemos atacados ou confrontados pelo silêncio, especialmente quando permitimos que o ego nos engane ao longo dos anos. E isso é prejudicial por uma razão: os melhores trabalhos e as melhores obras de arte vêm da luta contra o vazio, de enfrentá-lo em vez de fugir dele. A questão é: ao se encontrar diante do seu desafio particular — seja a pesquisa em uma nova área, fundar um novo negócio, produzir um filme, conquistar um mentor, promover uma causa importante —, você busca o alívio da fala ou encara a luta? Pense nisto: a voz de uma geração não se proclama como tal. Na verdade, pensando bem, percebemos quão pouco essa voz parece falar. É uma canção, é um discurso, é um livro — o volume do trabalho pode ser pequeno, mas o que há dentro dele é concentrado e impactante. São pessoas que trabalham em silêncio e isoladas. Elas transformam sua inquietude interior em um produto — e, eventualmente, em tranquilidade. Ignoram o impulso de buscar o reconhecimento antes da ação. Não falam muito. Nem dão espaço para a sensação de que quem está diante do público, gozando dos holofotes, de algum modo está saboreando o melhor lado da moeda. (Não está.) Essas pessoas estão ocupadas demais trabalhando para fazer qualquer outra coisa. Quando falam, é porque merecem. A única relação entre a fala e o trabalho é que uma mata o outro. Deixe que os outros se congratulem entre si enquanto você está de volta ao laboratório, ou na academia, ou procurando um emprego. Tape esse buraco — aquele mesmo, bem no meio do seu rosto — que pode sugar a sua força vital. Observe o que acontece. Observe quão melhor você ficará. 


SER OU FAZER? 



Neste período de formação, a alma ainda não foi maculada pela guerra contra o mundo. Ela repousa como um bloco de puro mármore de Paros, pronto para ser moldado — mas em quê?
 
— ORISON SWETT MARDEN 

Um dos estrategistas e profissionais mais famosos da arte da guerra moderna é alguém sobre quem a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Seu nome é John Boyd. Ele era um ótimo piloto de caça, mas era melhor ainda como professor e pensador. Depois de ter voado na Coreia, ele se tornou o principal instrutor da Fighter Weapons School, uma escola de elite na Base Aérea de Nellis. Era conhecido como “Quarenta Segundos Boyd” — o que significava que podia derrotar qualquer oponente, em qualquer posição, em menos de quarenta segundos. Alguns anos depois, Boyd foi convocado sem alarde pelo Pentágono, onde seu verdadeiro trabalho teve início. Por um lado, o fato de a maioria das pessoas nunca ter ouvido falar de John Boyd não surpreende. Ele nunca publicou nenhum livro e escreveu um único artigo acadêmico. Apenas alguns vídeos seus sobreviveram, e ele foi raramente citado na mídia. Apesar de trinta anos de um serviço impecável, Boyd não passou da patente de coronel. Por outro lado, suas teorias transformaram a guerra de manobra em quase todos os departamentos das forças armadas, e não apenas em vida, mas mais ainda depois de sua morte. Os caças F-15 e F-16, que reinventaram as aeronaves militares modernas, foram seus projetos de estimação. Sua principal atuação era como conselheiro; por meio de instruções lendárias, ele ensinou e treinou quase todos os principais pensadores militares de uma geração inteira. Sua colaboração com os planos de guerra para a Operação Escudo do Deserto veio em uma série de encontros pessoais com o secretário de Defesa, e não por intermédio de canais públicos ou oficiais. Seu principal meio de levar uma mudança a cabo era pela coleção de pupilos que orientava, protegia, ensinava e inspirava. Não existem bases militares batizadas em sua homenagem. Nenhum navio de guerra. Ele se aposentou acreditando que seria esquecido, e possuía apenas um pequeno apartamento e uma pensão em seu nome. É quase certo que tivesse mais inimigos do que amigos. Um caminho incomum. E se essa trajetória tiver sido deliberada? E se o tornou mais influente? Quão louco isso seria? Na verdade, Boyd estava simplesmente aplicando a mesma lição que tentava ensinar a cada jovem promissor tomado sob sua asa, o qual ele sentia ter potencial para se tornar alguma coisa importante, que faria alguma diferença. As estrelas em ascensão que ele ensinou provavelmente têm muito em comum conosco. O discurso que Boyd fez para um pupilo em 1973 deixa isso claro. Pressentindo o que sabia que seria uma encruzilhada na vida do jovem oficial, Boyd o chamou para uma reunião. Como muitos profissionais de alto desempenho, o soldado era inseguro e impressionável. Ele queria ser promovido e se sair bem. Era uma folha que podia ser soprada em qualquer direção, e Boyd sabia disso. Então, naquele dia, ele ouviu um discurso que Boyd repetiria várias vezes, até se tornar uma tradição e um rito de passagem para uma geração de líderes militares transformadores. “Tigre, um dia você chegará a uma bifurcação na estrada”, disse Boyd. “E precisará decidir para que lado quer ir.” Usando as mãos para ilustrar, Boyd indicou as duas direções. “Se quiser ir para aquele lado, poderá se tornar alguém. Você precisará fazer acordos e virar as costas para seus amigos. Mas será um membro do clube, será promovido e receberá boas missões.” Em seguida, Boyd fez uma pausa para deixar clara a alternativa: “Ou”, disse ele, “você pode ir para aquele lado e fazer alguma coisa — alguma coisa por seu país, por sua Força Aérea e por si mesmo. Se decidir que quer fazer alguma coisa, talvez você não seja promovido e talvez não receba boas missões, e com certeza não será um dos favoritos de seus superiores. Mas não vai precisar se comprometer. Será leal a seus amigos e a si mesmo. E seu trabalho fará diferença. Ser alguém ou fazer alguma coisa. Na vida, muitas vezes nos deparamos com um chamado. É aí que precisamos fazer uma escolha.” E então Boyd concluiu com palavras que guiariam aquele jovem e muitos de seus colegas pelo resto de suas vidas. “Ser ou fazer? Para que lado você vai?” O que quer que você busque na vida, a realidade não demora a interferir no idealismo de sua juventude. A realidade pode ter muitos nomes e formas: incentivos, compromissos, reconhecimento e políticas. Em todos os casos, ela pode rapidamente nos desviar de fazer para ser. De conquistar para fingir. O ego alimenta essa ilusão a cada passo do caminho. Era por isso que Boyd queria que os jovens vissem que, se não tomarmos cuidado, até mesmo o cargo que desejamos ocupar é capaz de nos corromper. Como evitar o desvio? Muitas vezes, nós nos apaixonamos por uma imagem do que acreditamos ser o sucesso. No mundo de Boyd, a quantidade de estrelas em seu ombro ou a natureza de uma tarefa e sua localização poderiam facilmente ser confundidas como um indicador de conquista. Para outras pessoas, é o título do emprego, a faculdade de administração que frequentaram, o número de assistentes que possuem, a localização de sua vaga no estacionamento, os subsídios que recebem, seu acesso ao CEO, o tamanho de seu contracheque ou o número de fãs que têm. As aparências enganam. Ter autoridade não é a mesma coisa que ser uma autoridade. Ter o direito e ser direito tampouco são a mesma coisa. Ser promovido não significa, necessariamente, que se está fazendo um bom trabalho, ou que sequer se tenha merecido a promoção (eles chamam isso de fracasso ascendente em alguns sistemas burocráticos). Impressionar as pessoas é algo completamente diferente de ser de fato impressionante. Então, com quem você está? Que lado escolherá? Essa é a escolha que a vida nos obriga a fazer. Boyd tinha outro exercício. Ao visitar ou conversar com grupos de oficiais da Força Aérea, ele escrevia em letras grandes no quadro-negro: DEVER, HONRA, NAÇÃO. Em seguida, riscava essas palavras e as substituía por três outras: ORGULHO, PODER, GANÂNCIA. O que ele queria dizer era que muitos dos sistemas e das estruturas das forças militares — aqueles pelos quais os soldados navegam a fim de seguir em frente — podem corromper os próprios valores a que eles deveriam servir. O historiador Will Durant tinha um dito espirituoso: uma nação nasce estoica e morre epicurista. Essa é a triste verdade que Boyd ilustrava, a de como valores positivos azedam. Quantas vezes vimos isso acontecer durante nossas vidas — nos esportes, nos relacionamentos, com projetos ou pessoas que são extremamente importantes para nós? É isso que o ego faz. Ele risca o que importa e substitui pelo que não tem importância. Muitas pessoas querem mudar o mundo, e isso é bom. Você quer ser o melhor no que faz. Ninguém quer ser um profissional de fachada. Mas, em termos práticos, quais das três palavras que Boyd escrevia no quadro-negro vão fazer você chegar lá? Quais você está praticando agora? Quais o estão alimentando? A decisão que Boyd nos apresenta se resume a um propósito. Qual é o seu propósito? Você está aqui para fazer o quê? Pois o propósito nos ajuda a responder com muita facilidade à pergunta “Ser ou fazer?”. Se o que importa é você — sua reputação, sua inclusão, sua tranquilidade pessoal —, o caminho está claro: diga aos outros o que eles querem ouvir. Busque atenção, e não o trabalho discreto, porém importante. Diga sim às promoções e siga o caminho que as pessoas talentosas costumam seguir na indústria ou no campo que escolheram. Cumpra com seus deveres, marque os quadradinhos, dedique-se e deixe as coisas essencialmente como são. Busque sua fama, seu salário, seu título, e saboreie tais conquistas. “Um homem é moldado pelo trabalho que faz”, afirmou Frederick Douglass. E o fez com conhecimento de causa, pois foi um escravo e viu o que a escravidão fazia com todos os envolvidos, inclusive os próprios donos de escravos. Depois que se tornou um homem livre, Douglass viu que o mesmo se aplicava às escolhas que as pessoas faziam em suas carreiras e em suas vidas. O que você escolhe fazer com seu tempo e o que escolhe fazer para ganhar dinheiro moldam você. O caminho do egocêntrico requer, como sabia Boyd, muito comprometimento. Se seu propósito é algo maior do que você — realizar algo, provar algo para si —, então, de repente, tudo se torna ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil. Mais fácil no sentido de que você agora sabe o que precisa fazer e o que é importante para você. As outras “escolhas” desaparecem, visto que, na realidade, não são realmente escolhas. São distrações. O que importa é fazer, e não o reconhecimento. Mais fácil no sentido de que você não precisa se comprometer. Mais difícil, porém, porque cada oportunidade — não importa quão gratificante ou recompensadora seja — deve ser avaliada de acordo com diretrizes rigorosas: Isto me ajudará no que me dispus a fazer? Isto permitirá que eu faça o que preciso fazer? Estou sendo egoísta ou altruísta? Nesse caminho, a pergunta não é “O que você quer ser na vida?”, mas “O que você quer conquistar na vida?”. Deixando de lado o interesse egoísta, esse caminho pergunta: a que chamado isso atende? Quais princípios governam minhas escolhas? Eu quero ser como todo mundo ou quero fazer algo diferente? Em outras palavras, é mais difícil porque tudo pode parecer um comprometimento. Embora nunca seja tarde demais, quanto mais cedo você fizer essas perguntas a si mesmo, melhor. Boyd, sem dúvida, mudou e aperfeiçoou sua área de um modo que quase nenhum teórico havia feito desde Sun Tzu ou Von Clausewitz. Ele era conhecido como Genghis John por causa da maneira como nunca deixava obstáculos ou oponentes impedi-lo de fazer o necessário. Suas escolhas tinham um custo. Ele também era conhecido como o coronel do gueto por causa de seu estilo de vida frugal. Morreu com uma gaveta cheia de cheques não descontados dados a ele por empreiteiros particulares, cuja somatória chegava a milhares de dólares e que Boyd considerava subornos. O fato de ele nunca ter passado da patente de coronel não foi uma decisão sua: Boyd foi várias vezes impedido de receber promoções. Foi esquecido pela história como punição pelo trabalho que fez. Pense nisso na próxima vez que se sentir merecedor de alguma coisa, na próxima vez que confundir seu sonho com fama. Pense em como pode estar à altura de um homem como esse. Pense nisso sempre que se deparar com a escolha: preciso disso? Ou é só o meu ego falando? Você está pronto para tomar a decisão certa? Ou os prêmios ainda enchem seus olhos? Ser ou fazer? A vida é uma escolha interminável. 


TORNE-SE UM APRENDIZ 



Não deixe que o fantasma de ninguém volte para dizer que meu treinamento não me serviu. 
— PLACA NA ACADEMIA DE TREINAMENTO DO CORPO DE BOMBEIROS DE NOVA YORK 



Era abril, no começo dos anos 1980, quando um único dia se tornou ao mesmo tempo o pesadelo de um guitarrista e o trabalho dos sonhos de outro. Sem aviso, os membros da ainda desconhecida banda Metallica se reuniram antes de uma sessão de gravação que haviam marcado em um armazém decadente de Nova York e informaram ao guitarrista Dave Mustaine que ele estava fora. Depois de poucas palavras, eles lhe entregaram uma passagem de ônibus de volta para São Francisco. No mesmo dia, um jovem e competente guitarrista chamado Kirk Hammett, com pouco mais de vinte anos e membro de uma banda chamada Exodus, ficou com a vaga. Alguns dias depois de cair de paraquedas no meio de uma nova vida, ele fez seu primeiro show com o Metallica. Era provável que esse fosse o momento pelo qual Hammett esperara a vida toda. E, de fato, era. Embora conhecido apenas em pequenos círculos na época, o Metallica era um grupo que parecia destinado a ir longe. Sua música já havia começado a desafiar os limites do thrash metal, e o estrelato batia à porta. Em poucos anos, eles seriam uma das maiores bandas do mundo, tendo chegado a vender mais de cem milhões de discos. Foi por volta dessa época que Hammett descobriu algo que deve ter sido desmoralizante: apesar dos anos que havia passado tocando e de ter sido convidado para se juntar ao Metallica, ele não era tão bom quanto gostaria de ser. Em São Francisco, cidade onde morava, Kirk procurou um professor de guitarra. Em outras palavras, apesar de ter entrado para o grupo dos seus sonhos e de ter literalmente se tornado um profissional, ele insistia que precisava de mais instrução — que ainda era um aprendiz. O professor que ele procurou era famoso por ser um mestre dos mestres e por ter trabalhado com prodígios musicais como Steve Vai. Joe Satriani, o cara que Hammett escolheu como instrutor, viria a ser reconhecido como um dos melhores guitarristas de todos os tempos e venderia mais de dez milhões de discos com sua música única e virtuosa. Ensinando em uma pequena loja de instrumentos musicais de Berkeley, o estilo de tocar de Satriani fazia dele uma escolha incomum para Hammett. Mas essa era a intenção: Kirk desejava aprender o que não sabia, reforçar seu entendimento básico a fim de poder continuar explorando o gênero musical que agora tinha a chance de praticar. Satriani esclarece o que faltava a Hammett — certamente, não talento. “O principal lance com Kirk (…) era que ele era um guitarrista muito bom quando chegou. Ele já estava tocando a guitarra principal (…), já era o solista. Tinha uma ótima mão direita, conhecia a maioria dos acordes, só não tinha aprendido a tocar em um ambiente que lhe ensinasse todos os nomes e não sabia como conectar tudo.” Isso não quer dizer que as aulas foram pura diversão. Na verdade, Satriani explicou que o diferencial de Hammett era sua disposição para suportar o tipo de instrução que outros não suportariam. “Ele era um bom aluno. Muitos de seus amigos e contemporâneos saíam reclamando, achando que eu era um professor muito durão.” O sistema de Satriani era claro: haveria aulas semanais, lições a serem aprendidas e, se não fosse assim, Hammett estaria desperdiçando o tempo de todo mundo e não precisaria mais voltar. Assim, nos dois anos que se seguiram, Kirk fez o que Satriani pediu, retornando a cada semana para avaliações objetivas, para ser julgado e para treinar arduamente técnica e teoria musical no instrumento que logo estaria tocando na frente de milhares e, depois, dezenas de milhares e, por fim, centenas de milhares de pessoas. Mesmo depois desse período de dois anos de estudo, ele levaria para Satriani os licks e riffs que estava trabalhando com a banda, aprendendo a refrear o instinto por mais, aperfeiçoando a capacidade de fazer melhor com menos notas e se concentrando em sentir essas notas e expressá-las de maneira adequada. A cada vez, Kirk melhorava como instrumentista e como artista. O poder de ser um aprendiz não significa apenas ter um período prolongado de instrução, mas também coloca o ego e a ambição nas mãos de outra pessoa. Um tipo de teto é imposto ao ego, pois o indivíduo sabe que não é melhor do que o “mestre” com quem aprende. Não está nem perto disso. Você respeita o mestre, você se subordina. Não pode fingir ou enganá-lo. Não dá para “trapacear” em um processo educativo; não existe outro atalho a não ser aprender todos os dias. Se você não aprender, está fora. Não gostamos de pensar que alguém é melhor do que nós. Ou que ainda temos muito a aprender. Queremos pensar que chegamos ao fim de nosso aprendizado. Queremos estar prontos. Estamos ocupados e sobrecarregados. Por isso, realocar os próprios talentos a um patamar inferior após uma autoavaliação é uma das coisas mais difíceis de se fazer na vida — mas é quase sempre um componente da maestria. Fingir conhecimento é um de nossos vícios mais perigosos, pois nos impede de melhorar. Uma autoavaliação meticulosa é o antídoto para isso. O resultado, não importa qual seja seu gosto musical, foi que Hammett se tornou um dos grandes guitarristas de metal do mundo, fazendo com que o thrash metal passasse de um movimento underground a um gênero musical global. E não apenas isso, mas, por meio dessas aulas, Satriani aperfeiçoou sua própria técnica e se tornou muito melhor. Tanto o aluno quanto o professor encheriam estádios e transformariam o cenário musical. Frank Shamrock, pioneiro das artes marciais mistas (MMA) e várias vezes campeão, tem um sistema que usa para treinar lutadores e que chama de mais, menos, igual. Ele diz que, se quiser ser grande, cada lutador deve ter alguém melhor com quem aprender, alguém inferior a quem ensinar e alguém no mesmo patamar com quem se comparar. O propósito da fórmula de Shamrock é simples: obter um retorno real e contínuo sobre o que se sabe e o que não se sabe sob todos os ângulos possíveis. Isso elimina o ego, que nos deixa inflados, o medo, que nos leva a duvidar de nós mesmos, e qualquer preguiça que possa levar à acomodação. Como Shamrock disse: “Ideias errôneas sobre si mesmo destroem você. Pessoalmente, jamais deixarei de ser um aprendiz. Esse é o objetivo das artes marciais, e você precisa usar essa humildade como ferramenta. Você se coloca abaixo de alguém em quem confia.” Isso começa pela aceitação de que outras pessoas sabem mais e de que você pode se beneficiar do conhecimento delas, esforçando-se para conseguir isso e acabando com as ilusões que tem a respeito de si mesmo. A necessidade de ter uma mentalidade de aprendiz não se restringe à luta ou à música. Um cientista deve conhecer tanto os princípios básicos da ciência quanto estar atualizado a respeito das últimas descobertas. Um filósofo deve ter conhecimentos profundos e ao mesmo tempo estar ciente de quão pouco sabe, tal como Sócrates. Um escritor deve ser versado na literatura clássica, mas também ler e ser desafiado por seus contemporâneos. Um historiador deve conhecer a história antiga e a história moderna, assim como sua especialidade. Atletas profissionais têm equipes de técnicos, e até políticos poderosos têm consultores e mentores. Por quê? Para se tornarem grandes e continuarem grandes, todos devem saber o que veio antes, o que está acontecendo agora e o que virá em seguida. Eles devem absorver os fundamentos do seu domínio e o que os cerca, sem que se tornem fósseis ou parem no tempo. Devem estar sempre aprendendo. Todos nós devemos nos tornar nossos próprios professores, tutores e críticos. Pense no que Hammett poderia ter feito, ou o que nós poderíamos ter feito na posição dele se, da noite para o dia, tivéssemos nos tornado um astro de rock ou algo equivalente a isso em nosso campo de atuação. A tentação é pensar: consegui. Cheguei aonde queria. Eles expulsaram o outro cara porque ele não é bom como eu. Eles me escolheram porque eu tenho o que é necessário. Se Hammett tivesse feito isso, provavelmente nunca teríamos ouvido falar no seu nome ou na banda. Afinal de contas, existem muitos grupos de metal da década de 1980 que foram esquecidos. Um verdadeiro aprendiz é como uma esponja: absorve o que acontece ao seu redor, filtra e se segura no que pode manter. Um aprendiz é autocrítico e automotivado, sempre tentando aperfeiçoar sua compreensão a fim de poder passar para o próximo tópico, o próximo desafio. Um verdadeiro aprendiz também é seu próprio professor e seu próprio crítico. Não há espaço para o ego. Tomemos mais uma vez como exemplo a luta, uma área em que a consciência de si mesmo é particularmente crucial, já que parte do processo é usar os próprios pontos fortes contra os pontos fracos do oponente. Se um lutador não é capaz de aprender e praticar todos os dias, se não estiver buscando de maneira incansável possibilidades de aperfeiçoamento, examinando os próprios pontos fracos e encontrando novas técnicas de colegas e oponentes para serem assimiladas, será derrubado e destruído. Não é tão diferente para o restante de nós. Não estamos lutando por ou contra alguma coisa? Você acha que é o único que espera alcançar seu objetivo? É claro que não acredita que é o único tentando conquistar aquele anel. As pessoas costumam ficar surpresas ao descobrirem o quão humildes os aspirantes à grandeza costumavam ser. Você está dizendo que eles não eram agressivos, convictos, conscientes da própria grandeza e do seu destino? A realidade é que, embora fossem confiantes, a atitude de eterno aprendiz manteve esses homens e mulheres humildes. “É impossível aprender aquilo que consideramos já saber”, disse Epiteto. Você não pode aprender se acha que já sabe. Não encontrará respostas se for orgulhoso ou presunçoso demais para fazer perguntas. Não poderá melhorar se estiver convencido de que já é o melhor. A arte de receber feedback e, principalmente, críticas duras é uma habilidade crucial na vida. Nós não apenas precisamos aceitar críticas, mas solicitá-las, esforçando-nos para buscar o negativo precisamente quando nossos amigos, nossos familiares e nosso cérebro nos dizem que estamos nos saindo muito bem. O ego, no entanto, evita esse tipo de avaliação a todo custo. Quem quer se submeter a um treinamento para corrigir erros? O ego acredita que já sabe como e quem somos — isto é, acha que somos espetaculares, perfeitos, gênios e verdadeiramente inovadores. Ele não gosta da realidade e prefere sua própria análise. O ego tampouco nos permite uma preparação adequada. Para nos tornarmos o que almejamos, muitas vezes precisamos de longos períodos de anonimato, sentando e lutando com algum tópico ou paradoxo. A humildade é o que nos mantém nessa posição, preocupados com o que não sabemos o suficiente e com o que devemos continuar estudando. O ego nos apressa a chegar ao fim, nos faz pensar que a paciência é para perdedores (enxergando-a, erroneamente, como fraqueza) e presumir que somos tão bons que submeter nosso talento às provas do mundo é quase um desaforo. Quando nos sentamos para pôr nosso trabalho à prova, quando fazemos a primeira apresentação ou nos preparamos para abrir a nossa primeira loja, quando encaramos a plateia do ensaio com figurino, o ego é o inimigo — dando um feedback malicioso, desconectado da realidade. Ele nos coloca na defensiva justamente quando não podemos nos dar a esse luxo. Bloqueia nosso aperfeiçoamento dizendo que não precisamos nos aperfeiçoar. Então, nós nos perguntamos por que não alcançamos os resultados que queremos, por que outros são melhores e por que o sucesso deles é mais duradouro. Hoje, os livros são mais baratos do que nunca. Existem cursos gratuitos. O acesso a professores não é mais uma barreira — a tecnologia acabou com isso. Não existe desculpa para não se instruir, e porque a informação que temos diante de nós é bastante vasta, também não existe desculpa para interrompermos esse processo em momento algum. Nossos professores na vida não são apenas os pagos, como Hammett pagou a Satriani. Tampouco eles precisam fazer parte de algum dojo de treinamento, como no caso de Shamrock. Muitos dos melhores professores estão disponíveis gratuitamente. Eles são voluntários, pois já foram jovens e tiveram os mesmos objetivos que você. Muitos sequer conhecem os alunos — eles simplesmente são exemplos, ou até mesmo figuras históricas cujas lições sobrevivem em livros e artigos. Mas o ego nos torna tão teimosos e hostis ao feedback que afasta ou coloca tais instrutores fora de nosso alcance. É por isso que o velho provérbio diz: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.





 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Livro Nunca Desista dos Seus Sonhos - Augusto Cury - Resumo

 Livro Nunca Desista dos Seus Sonhos - Augusto Cury


  

A g r a d e c i m e n t o s 

 

Agradeço ao meu pai, Salomão, por ter acreditado em mim e me ensinado a sonhar com a medicina e com a ciência, mesmo quando eu o decepcionava na escola. Agradeço à minha mãe, Ana, pela sua riquíssima humildade e sensibilidade. Ela me ensinou a enxergar com os olhos do coração.

Agradeço à minha esposa, Suleima, por ter me estimulado a nunca desistir do meu sonho de produzir uma nova teoria sobre o funcionamento da mente e ter acreditado que ela poderia contribuir para a expansão da ciência e para o enriquecimento da humanidade. “Ao lado de um grande homem há uma grande mulher.” Não sou um grande homem, mas tenho uma grande mulher.

Agradeço às minhas três filhas, Camila, Carolina e Cláudia, pelos beijos diários, pelo carinho e paciência que sempre tiveram comigo. Não deve ser fácil ser filha de um psiquiatra, pesquisador e escritor. Sou apaixonado por elas até o limite do meu entendimento.

Agradeço a amabilidade dos funcionários da Editora Sextante e aos meus amigos e editores Geraldo (in memoriam) e Regina (os pais) e Marcos e Tomás (os filhos). Eles são uma família encantadora. São poetas do mundo editorial. A Regina, ao revisar este livro, ficou tão inspirada com seu conteúdo que desejou que seus netos tenham muitos sonhos e que nunca desistam deles.

Agradeço a Deus por me emprestar diariamente o coração que pulsa, o oxigênio que respiro, o solo em que caminho e milhões de itens para que eu exista. Ele suportou meu cético ateísmo, me levou a encontrar a Sua assinatura atrás da cortina da existência e me fez enxergar que Seu sonho de ver a espécie humana unida, fraterna e solidária é o maior de todos os sonhos.

Agradeço a cada um dos meus milhões de leitores de várias nações. Para mim vocês são joias únicas no teatro da vida. Obrigado por existirem. O mundo precisa de pessoas que leiam, desenvolvam a arte de pensar e sonhem com uma humanidade melhor.

 

Sumário

 

Prefácio – Os sonhos alimentam a vida

Introdução
Os sonhos abrem as janelas da inteligência

Capítulo 1
O maior vendedor de sonhos da história

Capítulo 2
Um sonhador que colecionava derrotas
 

Capítulo 3
O sonho de um pacifista que enfrentou o mundo
 

Capítulo 4
Um sonhador que desejou mudar os fundamentos da ciência e contribuir com a humanidade
 

Capítulo 5
Nunca desista de seus sonhos

Referências bibliográficas

Comentários de leitores

 

  P r e f á c i o 

OS SONHOS ALIMENTAM A VIDA

 Os sonhos são como vento, você os sente, mas não sabe de onde eles vieram e nem para onde vão. Eles inspiram o poeta, animam o escritor, arrebatam o estudante, abrem a inteligência do cientista, dão ousadia ao líder. Eles nascem como flores nos terrenos da inteligência e crescem nos vales secretos da mente humana, um lugar que poucos exploram e compreendem.

Há dois tipos de sonhos.

Primeiro, os sonhos produzidos quando mergulhamos no sono. Segundo, os sonhos que produzimos quando estamos acordados, vivendo as batalhas da existência, sentindo a vida que pulsa em nosso dia a dia.

Os sonhos gerados no sono têm grande importância para o desenvolvimento da inteligência. Quando adormecemos, o "eu", que representa nossa vontade consciente, deixa de atuar logicamente, e, paralelamente, alguns fenômenos inconscientes começam a ler continuamente a memória e produzir ideias, imagens mentais, fantasias e personagens. Há uma explosão criativa nos sonhos noturnos, uma releitura do passado.

Estes sonhos são como complexos filmes arquitetados sem um diretor, sem uma condução lógica. São filmes que resgatam as informações do passado recente ou remoto, dando nova forma, cores e sabores às experiências vividas.

Os sonhos noturnos não são inofensivos, pois se registram na memória e podem tanto expandir o aprendizado e enriquecer a personalidade quanto alimentar a insegurança e a ansiedade.

Todos sonhamos quando dormimos, embora nem sempre recordemos dos sonhos quando acordamos. Este é o primeiro tipo de sonho. Entretanto, não é sobre os sonhos noturnos que vou discorrer neste livro. 

Vou falar sobre os sonhos diurnos. O sonho que produzimos quando choramos, brincamos, cantamos, falamos, silenciamos. O sonho que borbulha quando nasce um filho, quando conquistamos um amigo, ganhamos aplausos, recebemos vaias. O sonho que brota quando beijamos quem amamos. O sonho que surge quando a vida tirou, a alegria dissipou,

a esperança partiu.

Vou comentar sobre os sonhos que transformam o mundo. Os sonhos que nos inspiram a criar, nos animam a superar, nos encorajam a conquistar. Assim como os noturnos, os sonhos diurnos não são produzidos apenas pela motivação lógica e consciente do "eu", mas

também por fenômenos inconscientes que geram uma usina de emoções e uma fonte de pensamentos.

Moisés, Maomé, Buda, Confúcio, Sócrates, Platão, Sêneca, Abraham Lincoln, Gandhi, Einstein, Freud, Max Weber, Marx, Kant, Thomas Edison, Machado de Assis, Sun Tzu, Khalil Gibran, John Kennedy, Hegel, Maquiavel, Agostinho e muitos outros foram grandes sonhadores.

Estes homens mudaram a história porque tiveram grandes projetos. Tiveram grandes projetos porque viveram grandes sonhos. Seus sonhos aliviaram suas dores, trouxeram esperanças nas perdas, renovaram suas forças nas derrotas. Seus sonhos transformaram sua inteligência num solo fértil.

Deus também sonha? A arquitetura do universo com bilhões de galáxias e seus infinitos fenômenos parece gritar que não apenas existe um Deus por detrás da cortina da existência, como esse Deus tem um grande sonho! No entanto, parece que só os sensíveis ouvem a Sua voz. Descobrir o sonho do Arquiteto da Vida, independente de uma religião, é a responsabilidade e talvez o maior desafio de cada ser humano.

A criança e o sábio

Um dia uma criança chegou diante de um pensador e perguntou-lhe: "Que tamanho tem o universo?" Acariciando a cabeça da criança, ele olhou para o infinito e respondeu: "O universo tem o tamanho do seu mundo." Perturbada, ela novamente indagou: "Que tamanho tem o meu mundo?" 

O pensador respondeu: "Tem o tamanho dos seus sonhos." Se os seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil.

Shakespeare disse que "quando se avistam nuvens, os sábios vestem seus mantos". Sim! A vida tem inevitáveis tempestades. Quando elas sobrevêm, os sábios preparam seus mantos invisíveis: protegem sua emoção usando sua inteligência como paredes e os seus sonhos como teto. Os sonhos regam a existência com sentido. Se seus sonhos são frágeis,

sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romances.

A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, e a ausência dos sonhos transforma milionários em mendigos. A presença de sonhos faz de idosos, jovens, e a ausência de sonhos faz dos jovens, idosos.

 A juventude mundial está perdendo a capacidade de sonhar. Os jovens têm muitos desejos, mas poucos sonhos. Desejos não resistem às dificuldades da vida, sonhos são projetos de vida, sobrevivem ao caos.

A culpa, porém, não é dos jovens. Os adultos criaram uma estufa intelectual que lhes destruiu a capacidade de sonhar. Eles estão adoecendo coletivamente: são agressivos, mas introvertidos; querem muito, mas se satisfazem pouco.

Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história, renovam as forças do ansioso, animam os deprimidos, transformam os inseguros em seres humanos de raro valor. Os sonhos fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os

derrotados serem construtores de oportunidades.

Este livro foi escrito para todos os que precisam sonhar (crianças, jovens, pais, profissionais) e não apenas para psicólogos e educadores. Ele fala sobre a ciência dos sonhos, a mente dos sonhadores, a personalidade dos que nunca desistiram dos seus sonhos.

Acima de tudo este livro ensina a pensar. Provavelmente, ao lê-lo, você vai repensar a sua vida.

Uma mente saudável deveria ser uma usina de sonhos. Pois os sonhos oxigenam a inteligência e irrigam a vida de prazer e sentido.

  

  I n t r o d u ç ã o 

   OS SONHOS ABREM AS JANELAS DA INTELIGÊNCIA

 Quem consegue decifrar o ser humano?

 Um paciente culto me disse certa vez que era capaz de enfrentar um cachorro bravio, mas morria de medo das borboletas. Quais são os riscos reais que uma borboleta produz?

Nenhum, a não ser encantar os olhos com sua beleza. O conflito desse paciente não são os perigos reais exteriores, mas os perigos imaginários. Seu drama não é gerado pela borboleta física, mas pela borboleta psicológica registrada de maneira distorcida nos solos da sua memória.

Sua mãe lhe disse na infância que, se tocasse numa borboleta com as mãos e as colocasse nos olhos, ficaria cego. Quando o menino tocou numa borboleta, sua mãe gritou. O grito de alerta cruzou com a imagem da borboleta. Ambos os estímulos foram registrados no mesmo lócus do inconsciente, na mesma janela da memória. A belíssima e inofensiva borboleta tornou-se um monstro.

Durante toda a infância, quando esse paciente enxergava uma imagem de uma borboleta bailando graciosamente no ar, ele detonava um gatilho psíquico que abria em milésimos de segundos a janela da memória em que a imagem doentia estava registrada. A borboleta imaginária era libertada do seu inconsciente, assaltava-lhe a emoção e roubava-lhe a tranquilidade.

O grande problema é que todas as vezes que ele tiver uma experiência angustiante diante de borboletas, ela será registrada novamente, contaminando inúmeras outras janelas da memória. Quanto mais áreas doentias estiverem comprometidas em seu inconsciente, mais ele irá reagir sem racionalidade. Se esse paciente não reescrever a sua história, poderá tornar-se uma pessoa fóbica, frágil, sem capacidade de lutar pelos seus sonhos e com tendência a inúmeros outros tipos de medos.

O mecanismo que acabamos de descrever é um dos segredos da psicologia. Demoramos mais de um século para compreendê-lo. Por meio da teoria da Inteligência Multifocal estamos desvendando alguns fenômenos contidos nos bastidores da nossa mente que afetam todo o processo de construção de pensamentos e geram os traumas psíquicos. Não é a realidade concreta de um objeto que importa para nossa personalidade, mas a realidade interpretada, registrada.

Para alguns, um elevador é um lugar de passeio; para outros, um cubículo sem ar. Para uns, falar em público é uma aventura; para outros, um martírio que obstrui a inteligência. Para uns, as derrotas são lições de vida; para outros, um sufocante sentimento de culpa. Para uns, o desconhecido é um jardim; para outros, uma fonte de pavor. Para uns, uma perda é uma dor insuportável; para outros, um golpe que lapida o diamante da emoção.

Todos criamos monstros que dilaceram sonhos

 Quantos monstros imaginários foram arquivados nos subsolos da sua mente furtando seu prazer de viver e dilacerando seus sonhos? Todos temos monstros escondidos por detrás da nossa gentileza e serenidade.

A maneira como enfrentamos as rejeições, decepções, erros, perdas, sentimentos de culpa, conflitos nos relacionamentos, críticas e crises profissionais pode gerar maturidade ou angústia, segurança ou traumas, líderes ou vítimas. Alguns momentos geraram conflitos que mudaram nossas vidas, ainda que não percebamos.

Algumas pessoas não se levantaram mais depois de certas derrotas. Outras nunca mais tiveram coragem de olhar para o horizonte com esperança depois de suas perdas. Pessoas sensíveis foram encarceradas pela culpa, tornaram-se reféns do seu passado depois de cometerem certas falhas. A culpa as asfixiou.

Alguns jovens extrovertidos perderam para sempre sua autoestima depois que foram humilhados publicamente. Outros perderam a primavera da vida porque foram rejeitados por seus defeitos físicos ou por não terem um corpo segundo o padrão doentio de beleza ditado pela mídia.

Alguns adultos nunca mais se levantaram depois de atravessar uma grave crise financeira. Mulheres e homens perderam o romantismo depois de fracassarem em seus relacionamentos afetivos, após terem sido traídos, incompreendidos, feridos ou não amados.

Filhos perderam a vivacidade nos olhos depois que um dos pais fechou os olhos para a existência. Sentiram-se sós no meio da multidão. Crianças perderam sua ingenuidade depois da separação traumática dos pais. Foram vítimas inocentes de uma guerra que nunca entenderam. Trocaram as brincadeiras pelo choro oculto e cálido.

A complexidade da mente humana nos faz transformar uma borboleta num dinossauro, uma decepção num desastre emocional, um ambiente fechado num cubículo sem ar, um sintoma físico num prenúncio da morte, um fracasso num objeto de vergonha.

Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta (Foucault, 1998). Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la.

Todos somos complexos e complicados

Na minha trajetória como cientista da psicologia e psiquiatra clínico eu me convenci de que nada é tão lógico quanto o ser humano e nada é tão contraditório quanto ele. Podemos criar no teatro das nossas mentes os extremos: o drama e a sátira, o pânico e o sorriso, a força e a fragilidade.

Somos tão criativos que, quando não temos problemas, nós os inventamos. Alguns são especialistas em sofrer por coisas que eles mesmos criaram. Outros têm motivos para serem alegres, mas mendigam o prazer. Possuem grandes depósitos nos bancos, mas estão endividados no âmago do seu ser. São ansiosos e estressados.

Gandhi comentou com sensibilidade: “O que pensais, passais a ser.” O que pensamos afeta a emoção, infecta a memória e gera as misérias psíquicas. Nunca houve tantos miseráveis em carros importados, trabalhando em grandes escritórios, viajando de avião, saindo nas capas de revistas. Quem é escravo dos seus pensamentos não é livre para sonhar.

Ser complicado não é um privilégio de uma pessoa, de um povo, de um grupo social, de uma faixa etária. Adultos e crianças, psiquiatras e pacientes, intelectuais e alunos são complicados, têm momentos em que se irritam por pequenas coisas, sofrem desnecessariamente. Uns mais, outros menos.

É impossível estar livre de contradições e incoerências. Por quê? Porque temos uma complexa emoção que influencia a lógica dos pensamentos, as reações e atitudes humanas.

Qualquer pessoa que quer ser perfeita demais estará apta a ser um computador, mas não uma pessoa completa. Não devemos ficar aborrecidos por sermos tão complicados. Se, por um lado, nossas dores de cabeça surgem no campo que extrapola a lógica, as maravilhas da nossa inteligência também surgem nessa esfera.

Nossa capacidade de amar, tolerar, brincar, criar, intuir, sonhar é uma das maravilhas que surgem numa esfera que ultrapassa os limites da razão. Todas as pessoas muito racionais amam menos e sonham pouco. Os sensíveis sofrem mais, mas amam mais e sonham mais.

Inspiração e transpiração

Nem sempre os sonhos são definidos e bem organizados no teatro da mente. Às vezes nascem como pequenos traçados, simples esboços, ideias vagas que vão se desenhando e tomando forma ao longo da vida. Todas as grandes mudanças da humanidade no campo social, político, emocional, científico, tecnológico e espiritual surgiram por causa dos grandes sonhos.

Para ter grandes sonhos e produzir importantes mudanças na sociedade não é preciso ter características genéticas superiores ou privilégios dos gênios.

Thomas Edison acreditava que as conquistas humanas compõem-se de 1% de inspiração e 99% de transpiração. O inventor da “luz exterior” teve uma luz interior. Acredito que seu princípio tem fundamento, mas precisa de correção.

Creio que as conquistas dependem de 50% de inspiração, criatividade e sonhos, e 50% de disciplina, trabalho árduo e determinação. São duas pernas que devem caminhar juntas. Uma depende da outra, caso contrário nossos projetos tornam-se miragens, nossas metas não se concretizam.

Quem quer atingir a excelência nos seus estudos, nas suas relações afetivas e na sua profissão precisa libertar a criatividade para ser um sonhador e libertar a coragem para ser um empreendedor. Estes dois pilares contribuem para formar o caráter de um líder.

Os segredos dos que mudaram a história

        A maior genialidade não é aquela que vem da carga genética nem a que é produzida pela cultura acadêmica, mas a que é construída nos vales dos medos, no deserto das dificuldades, nos invernos da existência, no mercado dos desafios.

Muitos sonhadores desenvolveram áreas nobres da sua inteligência, áreas que todos têm condições de desenvolver. Eles atravessaram turbulências quase que insuperáveis. Suportaram pressões que poucos tolerariam. Viveram dias ansiosos, sentiram-se pequenos diante dos obstáculos.

Alguns foram chamados de loucos; outros, de tolos. Zombaram de alguns, outros foram discriminados. Tinham todos os motivos para desistir dos seus sonhos e, em certos momentos, até da própria vida. Mas não desistiram. Quais foram os seus segredos?

Eles fizeram da vida uma aventura. Não foram aprisionados pela rotina. Claro, é impossível escapar da rotina. Em muitos momentos ela é um calmante necessário. Mas esses sonhadores passaram pelo menos 10% do seu tempo criando, inventando, descobrindo.

Tiveram uma visão panorâmica da existência em tempo nublado. Foram empreendedores, estrategistas, persuasivos, amigos do otimismo. Foram sociáveis, observadores, analíticos, críticos.

Fizeram escolhas, traçaram metas e as executaram com paciência. Para o filósofo Kant, “a paciência é amarga, mas seus frutos são doces”. A paciência é o diamante da personalidade. Muitos discorrem sobre ela, poucos são seus amantes. Mas os que a conquistam colherão os mais excelentes frutos.

Para Plutarco, “a paciência tem mais poder do que a força”. Não meça um ser humano pelo seu poder político e financeiro. Meça-o pela grandeza dos seus sonhos e pela paciência em executá-los. Mas a paciência precisa de outro remo para conduzir o barco dos sonhos. Qual?

Precisa da coragem para correr riscos. Os maiores riscos para quem sonha são as pedras do caminho. Tropeçamos nas pequenas pedras e não nas grandes montanhas. Quem é controlado pelos riscos e pelos perigos das jornadas não tem resistência emocional. Cedo recua. Você tem essa resistência?

Epicuro acreditava que “os grandes navegadores deviam sua reputação aos temporais e às tempestades”. Se você tiver medo das tempestades, nunca navegará pelos mares desconhecidos. Jamais conquistará outros continentes.

Os que transformaram seus sonhos em realidade aprenderam a ser líderes de si mesmos para depois liderar o mundo que os cercava. Tinham uma ambição positiva, queriam transformar a sua sociedade, a sua empresa, seu espaço afetivo. Eram pessoas inconformadas tanto com os problemas sociais quanto com suas mazelas psíquicas.

Seus sonhos se tornaram realidade porque ganharam um combustível emocional que jamais se apagou, mesmo ao atravessarem chuvas torrenciais. Qual é esse combustível? A paixão pela vida, o amor pela humanidade. Foram dominados por um desejo incontrolável de serem úteis para os outros. Quem vive para si mesmo não tem raízes internas.

É possível destruir o sonho de um ser humano quando ele sonha para si, mas é impossível destruir seu sonho quando ele sonha para os outros, a não ser que lhe tirem a vida. Os ditadores jamais destruíram os sonhos dos que sonharam com a liberdade do seu povo. Morreram os ditadores, enferrujaram-se as armas, mas não se destruíram os sonhos de quem ama ser livre.

Garimpando ouro nos escombros das derrotas

 Farei neste livro uma análise aberta, livre e crítica sobre o funcionamento da mente de quatro personagens que construíram belíssimos sonhos e que fizeram outros sonharem. Escolhi quatro personagens apaixonados pela humanidade. E que passaram por momentos em que foram desacreditados, excluídos, feridos, considerados loucos, tolos, audaciosos.

Eles atravessaram o território do medo e escalaram os penhascos das dificuldades. Tombaram pelo caminho, feriram-se, mas continuaram caminhando quando muitos não acreditavam que se levantariam.

Tinham tudo para não dar certo, mas brilharam. Não eram especiais por fora, mas garimparam pedras preciosas nas ruínas dos seus traumas. Você sabe garimpar ouro em seus conflitos?

A maioria dos adultos da atualidade teria desistido dos seus sonhos e adoecido psiquicamente se tivesse vivido uma pequena parte dos transtornos que esses personagens suportaram.

Muitos jovens recuariam diante de obstáculos semelhantes. A juventude está despreparada para viver nessa estressante sociedade. Os jovens precisam desenvolver urgentemente resistência intelectual e emocional para suportar perdas, derrotas, humilhações, injustiças.

O que diferencia os jovens que fracassam dos que têm sucesso não é a cultura acadêmica, mas a capacidade de superação das adversidades da vida.

Estudaremos as reações desses quatro personagens diante das suas derrotas, veremos sua capacidade de superação, sua competência para serem líderes de si mesmos, sua coragem para correrem riscos, seus talentos intelectuais, sua intuição, sua visão multifocal da realidade.

Muitos outros personagens mereceriam ser descritos aqui, como Buda, Confúcio, Dostoiévski, Kant, Montaigne, John Kennedy, Gandhi, Thomas Edison, Einstein, porque foram grandes sonhadores. Por falta de espaço, não os analisarei, mas usarei as ideias de vários deles para me ajudarem na árdua tarefa de interpretação.

Creio que ao analisar a mente dos quatro personagens escolhidos estarei dissecando alguns princípios fundamentais que alicerçaram a inteligência dos grandes sonhadores de todas as eras. Teremos uma visão global (Morin, 2000) sobre a formação de pensadores.

As histórias que reconstruirei são baseadas em fatos reais. Não tenho a intenção de escrever uma biografia dos quatro personagens, portanto raramente mencionarei datas. Seguirei apenas uma sequência dos fatos mais importantes para minha interpretação.

O passado é uma cortina de vidro. Felizes os que observam o passado para poder caminhar no futuro. Penetraremos juntos como um cientista analisando as reações desses personagens em alguns eventos marcantes de suas vidas.

Ficaremos surpresos com suas histórias. Creio que elas nutrirão nossa inteligência, nos estimularão a desenterrar nossos sonhos e nos darão ferramentas para que possamos nos reconstruir.

Vamos penetrar no espetacular mundo que produz pesadelos e constrói sonhos.

  

C a p i t u l o  1 

O MAIOR VENDEDOR DE SONHOS DA HISTÓRIA

Pequenos momentos que mudam uma história

 Pequenos detalhes mudam uma vida. Um marido deu um beijo na esposa e disse que ela estava linda. Havia tempos não fazia isso. Ele a tinha ferido sem perceber. Seu pequeno gesto reeditou uma janela da memória da esposa onde havia uma mágoa oculta. A alegria voltou. A vida inteira precisamos de graça e gentileza (Platão, 1985).

Um pai elogiou um filho. O elogio partiu do coração do pai e penetrou nos becos da emoção do filho, oxigenando a relação que havia tempos estava desgastada. Um beijo, um elogio, um abraço desferido no golpe de um segundo são capazes de superar uma dor alojada há semanas, meses ou anos.

Os que desprezam os pequenos acontecimentos nunca farão grandes descobertas. Pequenos momentos mudam grandes rotas. Foi isso que aconteceu há muitos séculos na vida de alguns jovens que moravam na beira da praia de um país explorado e castigado pela fome. Pequenos momentos mudaram a maneira de pensar a existência. O mundo nunca mais foi o mesmo.

A personalidade construída sobre o crepitar das ondas

 O vento roçava a superfície do mar, que levantava o espelho d’água, que produzia o nascedouro das ondas num espetáculo sem fim. As ondas espumavam diariamente e se debruçavam orgulhosamente na orla das praias.

Alguns meninos cresceram correndo pela areia. Pegavam as bolhas que se formavam no estalido das ondas. Elas brilhavam nas palmas das mãos, mas logo se despediam, dissolviam e vazavam entre seus dedos, como se dissessem: “Eu pertenço ao mar.” Erguendo o semblante para o mar, os meninos diziam secretamente: “Nós também lhe pertencemos.”

Assim era a vida desses jovens. Seus avós tinham sido pescadores, seus pais foram pescadores e eles eram pescadores e morreriam pescadores. A história deles estava cristalizada. Os seus sonhos? Ondas e peixes.

Sonhavam com os cardumes. Entretanto, os peixes escassearam. A vida era árdua. Puxar as pesadas redes do mar era extenuante. Suportar as rajadas de ventos frios e as ondas rebeldes toda noite não era para qualquer um. E o pior, o resultado os frustrava. Cabisbaixos, reconheciam o fracasso. O mar tão grande se tornara uma piscina de decepções.

Todos os dias enfrentavam a mesma rotina e os mesmos obstáculos. Queriam mudar de vida. Mas faltava-lhes coragem. O medo do desconhecido os bloqueava. Era melhor ter muito pouco do que correr o risco de não ter nada, pensavam.

Na mente desses jovens não deviam passar inquietações sobre os mistérios da vida. A falta de cultura e a labuta pela sobrevivência não os estimulavam a grandes voos intelectuais. Viver para eles era fenômeno comum e não uma aventura indecifrável.

Nada parecia mudar-lhes o destino até que surgiu no caminho deles o maior vendedor de sonhos de todos os tempos.

 Um convite perturbador

 Naquelas bandas algo novo quebrou a mesmice. Havia um homem que morara por trinta anos num deserto. Seus discursos eram estranhos, seus gestos, bizarros. Parecia delirar em seu modo estranho de viver. Estava perturbado com a ideia fixa de que era o precursor do homem mais importante que jamais pisaria na Terra.

Seu nome era João, cognominado de Batista. O que parecia estranho é que ele não convivera com a pessoa que anunciava, mas ela havia ocupado o seu imaginário. Ele fazia discursos eloquentes às margens de um rio, descrevendo aquele homem com a precisão de um cirurgião.

Multidões se aproximavam para ver o espetáculo das suas ideias. Ele teve a coragem de dizer que o homem que aguardava era tão grande que ele mesmo não era digno de desatar-lhe as correias das sandálias. As pessoas ficavam perplexas com essas palavras.

Como podia um rebelde aos padrões sociais, que não tinha papas na língua, que não tinha medo de dizer o que pensava, elevar tão alto alguém que não conhecia? Que homem seria esse que João anunciava em seus discursos?

Esses discursos desenhavam no anfiteatro da mente dos ouvintes os mais diferentes quadros. Alguns achavam que o homem anunciado apareceria como um rei, com vestes talares. Outros imaginavam que ele apareceria como um general acompanhado por grande escolta. Outros ainda pensavam que ele era uma pessoa riquíssima que viria numa elegante carruagem, com uma equipe inumerável de serviçais. Todos o aguardavam ansiosamente.

Apesar da diversidade das fantasias, a maioria concordava que o encontro com ele seria solene. Todos esperavam um discurso arrebatador. De repente, no calor do entardecer, quando os olhos confundiam as imagens no horizonte, surgiu discretamente um homem simples, de origem pobre. Ninguém o notou.

Suas vestes eram surradas, sem nenhum requinte. Sua pele era desidratada, seca e sulcada, resultado do trabalho árduo e da longa exposição ao sol. Não tinha escolta, não tinha carruagem, não tinha serviçais.

Procurava passagem no meio da multidão. Tocava as pessoas com suavidade, pedia licença e pouco a pouco conseguia seu espaço. Alguns não gostaram, outros ficaram indiferentes à sua atitude.

Subitamente os olhares se cruzaram. João contemplou o homem dos seus sonhos. Foi arrebatado pela imagem. A imagem da fantasia das pessoas não coincidia com a imagem real. João via o que ninguém enxergava e, para espanto da multidão, exaltou sobremaneira aquele homem simples.

As pessoas ficaram confusas e decepcionadas. Se a imagem as chocou, esperavam pelo menos que seus ouvidos se deliciassem com o mais excelente discurso. Afinal de contas, a fome e os transtornos sociais eram enormes. Elas precisavam de alento.

Porém, o homem dos sonhos de João entrou mudo e saiu calado. O sonho da multidão se dissipou como as gotas d’água agredidas pelo sol do Saara. Desiludidas, as pessoas se dispersaram. Mergulharam novamente na sua entediante rotina.

Alguns jovens ouviram falar dos sonhos de João. Mas estavam ocupados demais com a própria sobrevivência. Nada os animava, a não ser ouvir o grito do corpo suplicando por pão para saciar o instinto. O mar era seu mundo.

Não havia nada diferente no ar. De repente, dois irmãos ergueram os olhos e viram uma pessoa diferente caminhando pela praia. Não se importaram. Os passos do desconhecido eram lentos e firmes. O viandante se aproximou. Os passos silenciaram. Seus olhos focalizaram os jovens.

Incomodados, eles se entreolhavam. Então, o estranho estilhaçou o silêncio. Ergueu a voz e lhes fez a proposta mais absurda do mundo: “Vinde após mim que eu vos farei pescadores de homens.”

Nunca tinham ouvido tais palavras. Elas perturbaram seus paradigmas. Mexeram com os segredos de suas almas. Ecoaram num lugar que os psiquiatras não conseguem perscrutar. Penetraram no espírito humano e geraram um questionamento sobre o significado da vida, sobre o valor da luta.

Todos deveríamos em algum momento da existência questionar nossas vidas e analisar pelo que estamos lutando. Quem não consegue fazer este questionamento será servo do sistema, viverá para trabalhar, cumprir obrigações profissionais e apenas sobreviver. Por fim, sucumbirá no vazio.

Os nomes dos irmãos que ouviram esse convite eram Pedro e André. A rotina do mar havia afogado os seus sonhos. O mundo deles tinha poucas léguas. Mas apareceu-lhes um vendedor de sonhos que lhes incendiou o espírito. Com uma sentença ele os estimulou a trabalharem para a humanidade, a enfrentarem o oceano imprevisível da sociedade.

Jesus Cristo não havia feito nenhum ato sobrenatural, no entanto sua voz tinha o maior de todos os magnetismos, porque vendia sonhos. Vender sonhos é uma expressão poética que fala de algo invendável. Ele distribuía um bem que o dinheiro jamais pôde comprar. O Mestre dos Mestres assombra os fundamentos da psicologia.

Fim da amostra.

 Sobre o autor

 

Augusto Cury é psiquiatra, cientista, pesquisador e escritor. Publicado em mais de 70 países, já vendeu, só no Brasil, mais de 30 milhões de exemplares de seus livros, sendo considerado o autor brasileiro mais lido na atualidade. Seu livro O vendedor de sonhos foi adaptado para o cinema pela Warner/Fox. O próximo título a ganhar as telonas será O futuro da humanidade.

Entre seus sucessos estão Armadilhas da mente; O futuro da humanidade; A ditadura da beleza e a revolução das mulheres; Pais brilhantes, professores fascinantes; O código da inteligência; O vendedor de sonhos; Ansiedade; Gestão da emoção; O homem mais inteligente da história e O homem mais feliz da história.

Cury é autor da Teoria da Inteligência Multifocal, que trata do complexo processo de construção de pensamentos, dos papéis da memória e da construção do Eu. Também é autor do Escola da Inteligência, o primeiro programa mundial de gestão da emoção para crianças e adolescentes e o maior programa de educação socio emocional da atualidade, com mais de 250 mil alunos.

Conferencista em congressos nacionais e internacionais, ele é diretor do Instituto Augusto Cury, que promove cursos para adultos e crianças com foco no gerenciamento da emoção e no desenvolvimento das funções mais importantes da inteligência. Também é idealizador do Programa Escola da Inteligência, que visa o aprimoramento intelectual, a saúde emocional e a construção de relações saudáveis.

 

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