O EGO É SEU INIMIGO
SUMÁRIO
Folha de rosto
Créditos
Mídias Sociais
Dedicatória
O doloroso prólogo
Introdução
PARTE I - ASPIRAÇÃO
Blá, blá, blá
Ser ou fazer?
Torne-se um aprendiz
Não seja apaixonado
Siga a estratégia da tela em branco
Contenha-se
Liberte-se de seus pensamentos
O perigo do orgulho precipitado
Trabalho, trabalho, trabalho
Para tudo o que vem a seguir, o ego é seu inimigo
PARTE II - SUCESSO
Seja sempre um aprendiz
Não conte uma história a si mesmo
O que é importante para você?
Arrogância, controle e paranoia
Como administrar a si mesmo
Cuidado com a doença do eu
Medite sobre a imensidão
Mantenha a sobriedade
Para o que costuma vir a seguir, o ego é seu inimigo
PARTE III - FRACASSO
Tempo produtivo ou tempo improdutivo?
O esforço é suficiente
Momentos
Clube da Luta
Saiba quando parar
Tenha seus próprios critérios de avaliação
Ame sempre
Para tudo o que vem a seguir, o ego é seu inimigo
Epílogo
O que ler agora
Bibliografia selecionada
Agradecimentos
Sobre o autor
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INTRODUÇÃO
O primeiro princípio é que você não deve se enganar — e que você é a pessoa mais fácil de enganar.
— RICHARD FEYNMAN
Talvez você seja jovem e esteja transbordando ambição. Talvez seja jovem e esteja em dificuldade.
Talvez tenha ganhado seus primeiros milhões, assinado o primeiro contrato, talvez tenha sido selecionado
para integrar algum grupo de elite ou até já tenha conquistado o suficiente para não precisar se preocupar
pelo resto da vida. Talvez esteja chocado ao descobrir o vazio que encontramos no topo. Pode ser que
tenha sido encarregado de liderar outras pessoas em meio a uma crise. Talvez tenha acabado de ser
demitido. Ou, quem sabe, acabou de chegar ao fundo do poço.
Seja qual for sua situação, o que quer que esteja fazendo, seu pior inimigo já mora dentro de você: seu
ego.
“Eu, não”, você pensa. “Ninguém nunca me chamaria de egomaníaco.” Talvez você sempre tenha se
visto como alguém bastante equilibrado. Entretanto, para pessoas com ambições, talentos, motivações e
potencial a ser realizado, o ego vem a reboque. Justamente o que nos torna tão promissores como
pensadores, executores, criadores e empreendedores e que nos leva ao topo de todos esses campos
também nos torna vulneráveis ao lado mais sombrio da psique.
Que fique claro que este não é um livro sobre o ego no sentido freudiano. Freud gostava de explicar o
ego por meio de analogias — nosso ego montado em um cavalo, as motivações inconscientes
representadas pelo animal e o ego tentando comandá-las. A psicologia moderna, por outro lado, usa a
palavra “egolatria” para se referir a alguém perigosamente concentrado em si mesmo e que despreza
qualquer outra pessoa. Todas essas definições são precisas, mas têm pouco valor fora do ambiente
clínico.
O ego ao qual nos referimos com maior frequência tem uma definição mais casual: uma crença doentia
na própria importância. Arrogância. Ambição egocêntrica. Esta é a definição que este livro usará. É
aquela criança petulante dentro de cada um, que prefere fazer as próprias vontades acima de tudo ou de
qualquer pessoa. A necessidade de ser melhor do que, mais do que, reconhecido por, muito além de
qualquer utilidade plausível — isso é o ego. É o senso de superioridade e de certeza que ultrapassa os
limites da autoconfiança e do talento.
É quando a noção de nós mesmos e do mundo se torna tão inflada que começa a distorcer a realidade
que nos cerca. Como explicou o técnico de futebol Bill Walsh, ocorre quando “a autoconfiança se
transforma em arrogância, a assertividade se torna teimosia e a segurança vira imprudência desmedida”.
Esse é o ego, como alertou o escritor Cyril Connolly, que “nos atrai como a força da gravidade”.
Desse modo, o ego é inimigo tanto daquilo que você quer quanto daquilo que você tem: do domínio de
um ofício; do verdadeiro pensamento criativo; da capacidade de trabalhar bem em equipe; de conquistar
lealdade e apoio; da longevidade; da repetição e da manutenção do sucesso. Ele repele vantagens e
oportunidades. É um ímã para inimigos e erros. É Cila e Caríbdis.
A maioria de nós não é “egomaníaca”, mas o ego está na raiz de todo problema ou obstáculo que se
possa imaginar — tanto na razão pela qual não conseguimos vencer quanto na necessidade de vencermos
o tempo todo e à custa dos outros. É o motivo pelo qual não temos o que queremos e da insatisfação após
conseguir aquilo que queríamos.
Não costumamos enxergar as coisas dessa maneira. Encontramos algum outro culpado por nossos
problemas (na maioria das vezes, outras pessoas). Nós somos, como disse o poeta Lucrécio alguns
milhares de anos atrás, o proverbial “doente que ignora a causa de sua enfermidade”. Sobretudo no caso
de pessoas bem-sucedidas, que não conseguem ver o que o ego as impede de fazer, porque veem apenas
as conquistas do passado.
Em cada ambição e meta que temos — seja grande ou pequena —, o ego sempre tenta nos atrapalhar
quando nos dedicamos por inteiro.
O pioneiro CEO Harold Geneen comparou o egocentrismo ao alcoolismo: “O egocêntrico não tropeça,
derrubando as coisas da mesa. Ele não gagueja nem baba. Não; em vez disso, ele se torna cada vez mais
arrogante, e algumas pessoas, sem saber o que há por trás dessa atitude, confundem sua arrogância com
autoridade e autoconfiança.” Pode-se dizer que eles próprios começam a fazer essa confusão, sem
perceber a doença que contraíram ou que estão se matando por causa dela.
Se o ego é a voz dizendo que somos melhores do que de fato somos, é possível chegar à conclusão de
que ele inibe o verdadeiro sucesso ao nos impedir de realizar uma conexão direta e honesta com o mundo
à nossa volta. Um dos primeiros membros dos Alcoólatras Anônimos acertou em cheio ao definir o ego
como “aquilo que conscientemente nos separa de”. De quê? Tudo.
As maneiras como essa separação se manifesta de modo negativo são infinitas: não conseguimos
trabalhar com outras pessoas quando construímos muros. Não podemos melhorar o mundo se não
entendemos nem a ele, nem a nós mesmos. Não podemos aceitar ou receber feedback quando somos
incapazes de ouvir fontes externas ou não temos interesse nisso. Não conseguimos identificar
oportunidades — ou criá-las — se, em vez de enxergarmos o que está diante de nós, vivemos dentro da
nossa própria fantasia. Sem uma comparação acurada entre nossas habilidades e a dos outros, o que
temos não é autoconfiança, mas ilusão. Se perdemos a conexão com nossas necessidades e com a dos
outros, poderemos alcançar, motivar ou liderar outras pessoas?
A artista performática Marina Abramović é direta: “Se você começar a acreditar na própria grandeza,
será a morte de sua criatividade.”
Apenas uma coisa mantém o ego por perto: o conforto. Perseguir um trabalho de qualidade — seja no
esporte, na arte ou nos negócios — é, muitas vezes, aterrorizante. O ego reduz esse medo. É como um
bálsamo para a insegurança. Substituindo as partes racionais e conscientes de nossa psique por vanglória
e autocentralização, o ego nos diz o que queremos ouvir, quando queremos ouvir.
Mas ele é uma solução de curto prazo com uma consequência de longo prazo.
Agora, mais do que nunca, nossa cultura alimenta a chama do ego. Falar e se envaidecer nunca foi tão
fácil. Podemos nos gabar de nossos objetivos para milhões de fãs e seguidores — um luxo que no
passado ficava reservado a astros do rock e líderes de seitas. Podemos seguir e interagir com nossos
ídolos no Twitter, ou ler livros, sites e assistir a palestras do TED, nos afogar em inspiração e validação
como nunca fizemos antes (existe um aplicativo para isso). Podemos nos autointitular CEO de uma
empresa que só existe no papel; anunciar boas notícias nas redes sociais e simplesmente esperar que os
elogios comecem a chover; publicar artigos sobre nós mesmos em veículos de comunicação que antes
eram fontes de jornalismo objetivo.
Alguns fazem isso mais do que outros. Mas é apenas uma questão de intensidade.
Além das mudanças tecnológicas, somos encorajados a acreditar em nossa singularidade acima de
tudo. Estimulados a pensar grande, viver grande, ser memoráveis e “ousar muito”. Achamos que o
sucesso requer uma visão arrojada ou algum plano arrebatador — afinal de contas, foi isso que os
fundadores dessa empresa ou aquele time campeão supostamente fizeram. (Mas será que fizeram?
Fizeram mesmo?) Assistimos na mídia empreendedores bem-sucedidos e pessoas que se gabam por
correrem grandes riscos e então, ávidos por sucesso pessoal, tentamos dissecar esses exemplos para
apreender a atitude e a postura certas.
Intuímos uma relação causal que não existe. Presumimos que as consequências do sucesso são o
próprio sucesso — e, em nossa ingenuidade, confundimos o subproduto com a causa.
É claro que o ego deu certo para alguns. Muitos dos homens e das mulheres famosos da história eram
notoriamente egocêntricos. Mas muitos dos maiores fracassos também foram consequências disso. Na
verdade, as tentativas fracassadas são a maioria. Mas aqui estamos nós com uma cultura que nos encoraja
a rolar os dados, a fazer a aposta, ignorando os riscos.
Em qualquer momento da vida, as pessoas se encontram em um de três estágios. Estamos aspirando a
algo — tentando abrir uma brecha no universo. Alcançamos o sucesso — talvez um pouco, talvez muito.
Ou fracassamos — recente ou continuamente. A maioria de nós se encontra em fluxo nesses três estados
— aspiramos até alcançarmos o sucesso, temos sucesso até fracassarmos ou até aspirarmos a mais, e
depois que fracassamos podemos começar a aspirar a ou alcançar o sucesso outra vez.
O ego é o inimigo a cada passo do caminho. De certo modo, ele é o inimigo da construção, da
manutenção e da recuperação. Quando as coisas vêm rápido e fácil, pode ser ótimo. Mas em momentos
de mudança, de dificuldade…
Assim, este livro é organizado em três partes: Aspiração, Sucesso e Fracasso.
O objetivo dessa estrutura é simples: ajudar a sufocar o ego antes que os maus hábitos se consolidem;
substituir por humildade e disciplina as tentações do ego que surgirem quando experimentarmos o
sucesso; e cultivar força e coragem, de modo que, quando o destino se voltar contra você, você não seja
arruinado pelo fracasso. Resumindo, essa estrutura poderá nos ajudar a ser:
- humildes em nossas aspirações;
- generosos em nossos sucessos;
- resilientes em nossos fracassos.
Isso não quer dizer que você não seja único e que não tenha nada de incrível com que contribuir em sua
breve passagem por este planeta. Não quer dizer que não haja espaço para ultrapassar limites criativos,
inventar, sentir-se inspirado ou ter mudanças e inovações verdadeiramente ambiciosas como meta. Pelo
contrário: para fazermos essas coisas da melhor maneira e corrermos tais riscos, precisamos de
equilíbrio. Como observou o quaker William Penn: “Construções que se encontram tão expostas às
intempéries precisam de uma boa fundação.”
Este livro que você tem em mãos foi escrito em torno de uma suposição otimista: seu ego não é um tipo
de força que você é compelido a saciar constantemente. Ele pode ser administrado. Pode ser
direcionado.
Aqui, analisaremos indivíduos como William Tecumseh Sherman, Katharine Graham, Jackie Robinson,
Eleanor Roosevelt, Bill Walsh, Benjamin Franklin, Belisarius, Angela Merkel e George C. Marshall.
Eles poderiam ter conquistado o que conquistaram — salvado empresas que estavam à beira da falência;
avançado na arte da guerra; integrado o beisebol; revolucionado o ataque do futebol americano;
enfrentado a tirania; resistido bravamente ao infortúnio — se o ego tivesse tirado seus pés do chão e os
deixado completamente absortos por interesses próprios? Foi seu senso de realidade e sua percepção —
os quais, o autor e estrategista Robert Greene certa vez disse, devemos praticar continuamente do mesmo
jeito que uma aranha faz com suas teias — que constituiu o núcleo de sua grande arte, grande escrita,
grande design, grandes negócios, grande marketing e grande liderança.
O que descobrimos ao estudarmos esses indivíduos é que eles têm os pés no chão, são circunspectos e
inexoravelmente reais. Não que nenhum deles estivesse completamente livre do ego. Mas eles sabiam
restringi-lo, canalizá-lo e incorporá-lo quando era importante. Eles eram, ao mesmo tempo, grandes e
humildes.
Espere um momento, mas fulano e sicrano tinham um grande ego e foram bem-sucedidos. O que
dizer de Steve Jobs? E Kanye West?
Podemos tentar racionalizar os piores comportamentos apontando as exceções. Mas ninguém é
realmente bem-sucedido porque é lunático, obcecado pelos próprios interesses e desconexo do restante.
Mesmo que esses traços estejam relacionados ou associados a certos indivíduos famosos, o mesmo pode
ser dito de outras características: vício, abuso (ou autoabuso), depressão, mania. Na verdade, o que
vemos quando estudamos essas pessoas é que elas fizeram seu melhor trabalho nos momentos em que
combateram esses impulsos, distúrbios e defeitos. Somente quando está livre do ego e das experiências
passadas é que alguém pode usar todo o seu potencial.
Por isso, também vamos analisar indivíduos como Howard Hughes, o rei persa Xerxes, John
DeLorean, Alexandre, o Grande, e todas as parábolas sobre outras pessoas que se desconectaram da
realidade e, no processo, deixaram claro como o ego pode ser perigoso. Analisaremos as valiosas lições
que aprenderam e todo o sofrimento e autodestruição com que tiveram que arcar. Veremos com que
frequência até mesmo as pessoas mais bem-sucedidas vacilam entre a humildade e o ego, bem como os
problemas que isso causa.
Quando eliminamos o ego, o que nos resta é a realidade. O que substitui o ego é a humildade — sim,
mas uma humildade e uma confiança sólidas. Enquanto o ego é artificial, esse tipo de confiança consegue
se sustentar. O ego é roubado. A confiança é conquistada. O ego é autoincensado, sua arrogância é um
artifício. A confiança nos envolve, o ego nos manipula. É a diferença entre um remédio potente e um
veneno.
Como você verá nas páginas seguintes, a autoconfiança transformou um general despretensioso e
subestimado no principal combatente e estrategista da América durante a Guerra Civil. Contudo, depois
da mesma guerra, o ego levou um general do topo do poder e da influência à destruição e à ignomínia. Em
certas circunstâncias, o ego transforma uma cientista alemã calada e séria não apenas em um novo tipo de
líder, mas em uma força da paz. Em outras, arrebata dois engenheiros diferentes mas igualmente
brilhantes do século XX e os arremessa em um redemoinho de badalação e notoriedade antes de jogar
suas esperanças contra as rochas do fracasso, da falência, do escândalo e da loucura. O ego foi capaz de
guiar um dos piores times da história da NFL, Liga Nacional de Futebol Americano, até o Super Bowl ao
longo de três temporadas, para então transformá-lo em uma das dinastias mais dominantes do esporte, ao
passo que inúmeros técnicos, políticos, empreendedores e escritores superaram adversidades
semelhantes apenas para sucumbir à probabilidade e repassar a coroa para outra pessoa.
Algumas pessoas aprendem a ter humildade. Outras escolhem o ego. Algumas estão preparadas para as
vicissitudes do destino, tanto as positivas quanto as negativas. Outras não estão. O que você escolherá?
Quem você será?
Você pegou este livro porque sente que em algum momento precisará responder a essa pergunta, seja
de maneira consciente ou não.
Bem, aqui estamos. Vamos em frente.
ASPIRAÇÃO
Nesse estágio, estamos dispostos a fazer uma coisa. Temos um objetivo, um chamado, um novo
começo. Cada grande jornada começa aqui — no entanto, muitos de nós nunca chegarão ao destino
pretendido. O ego, na maioria das vezes, é o culpado. Nós nos fortalecemos com histórias
fantásticas, fingimos ter entendido tudo, deixamos nossa estrela brilhar só para então se apagar, e
não fazemos ideia de por que isso aconteceu. Esses são os sintomas do ego. Sua cura são a
humildade e a realidade.
Ele é um cirurgião ousado, dizem, cujas mãos não tremem ao fazer uma operação em si mesmo; e ele costuma ser igualmente ousado ao não hesitar em erguer o misterioso véu da auto ilusão, que esconde de sua visão as deformidades da própria conduta.
— ADAM SMITH
SEJA QUAL FOR SUA ASPIRAÇÃO. O EGO É SEU INIMIGO...
Em algum momento por volta do ano 374 a.C., Isócrates, um dos professores e retóricos mais conhecidos
de Atenas, escreveu uma carta para um jovem chamado Demônico. Isócrates havia sido amigo do pai
recém-falecido do rapaz e queria lhe dar alguns conselhos sobre como seguir o exemplo de seu pai.
Os conselhos abrangiam tanto a vida prática quanto a moralidade — todos comunicados através do que
Isócrates descreveu como “máximas nobres”. Em suas palavras, eram “preceitos para os anos
vindouros”.
Tal qual muitos de nós, Demônico era ambicioso. Foi isso que levou Isócrates a lhe escrever, pois o
caminho da ambição pode ser perigoso. Isócrates começou informando o jovem de que “nenhum adorno
lhe cai tão bem como a modéstia, a justiça e o autocontrole; visto que essas são as virtudes por meio das
quais, como todos os homens concordam, a natureza do jovem é refreada”.
“Pratique o autocontrole”, ele disse, alertando Demônico sobre o perigo de se deixar levar pela força
do “temperamento, do prazer e da dor”. E “abomine bajuladores do mesmo modo que faria com
trapaceiros; pois que ambos, conquistada a confiança, ferem quem neles confia”.
Isócrates queria que ele fosse “afável em seu trato com aqueles que o abordarem, e jamais soberbo;
pois que até os escravos têm dificuldade de suportar o orgulho do arrogante” e “lento na deliberação,
mas rápido na execução de suas decisões”, acrescentando que “a melhor coisa que temos em nós é o bom
julgamento”. Treine constantemente seu intelecto, ele instruiu, “pois o que há de mais grandioso na menor
das bússolas é uma mente sã em um corpo humano”.
É possível que alguns desses conselhos soem familiares, já que dois mil anos depois eles chegaram a
William Shakespeare, que costumava alertar contra o ego desenfreado. Usando essa mesma carta como
modelo em Hamlet, Shakespeare coloca as palavras de Isócrates na boca do personagem Polônio em um
diálogo com seu filho Laertes. O discurso, caso você não conheça, termina com esta pequena estrofe:
E, acima de tudo, sê fiel a ti mesmoPois então, como a noite e o dia,Tu não poderás ser falso para com homem nenhum.Adeus. Que minha bênção amadureça isso em ti!
As palavras de Shakespeare, por sua vez, chegaram a um jovem oficial militar dos Estados Unidos
chamado William Tecumseh Sherman, que viria a se tornar talvez o maior general e estrategista daquele
país. É possível que ele nunca tenha ouvido falar de Isócrates, mas amava a peça e inúmeras vezes citou
esse mesmo discurso.
Assim como o pai de Demônico, o de Sherman morreu quando ele era ainda muito jovem. E como
Demônico, ele foi tomado sob a proteção de um homem mais sábio e mais velho, Thomas Ewing, um
amigo de seu pai que logo iria se tornar um senador norte-americano. Ewing adotou o menino e o criou
como se fosse seu filho.
O interessante a respeito de Sherman é que, apesar de ter um pai tão influente, era quase impossível
prever que suas realizações extrapolariam o âmbito regional — e muito menos que um dia ele tomaria a
decisão sem precedentes de recusar a presidência dos Estados Unidos. Ao contrário de Napoleão, que
surgiu do nada e desapareceu fracassado de forma igualmente rápida, a ascensão de Sherman foi lenta e
gradual.
Ele passou os primeiros anos de sua vida em West Point, e depois, no exército. Nos primeiros anos de
serviço militar, percorreu quase todo o território dos Estados Unidos a cavalo, aprendendo lentamente a
cada parada. Assim que irromperam os primeiros conflitos da Guerra Civil, Sherman seguiu para o leste
a fim de se apresentar como voluntário e logo foi empregado na Batalha de Bull Run, uma derrota
particularmente desastrosa para a União. Beneficiando-se da grande escassez de lideranças, ele foi
promovido a general de brigada e convocado para uma reunião com o presidente Lincoln e seu principal
conselheiro militar. Porém, em diversas ocasiões, Sherman exibiu autonomia suficiente para traçar
estratégias e planos diretamente junto ao presidente, mas no final da viagem fez um estranho pedido: só
aceitaria a promoção com a garantia de que não teria de assumir um cargo mais alto na hierarquia.
Lincoln poderia lhe dar sua palavra em relação a isso? Com todos os outros generais pedindo as maiores
patentes e o máximo possível de poder, o presidente concordou de bom grado.
Àquela altura, Sherman sentia-se mais confortável como o segundo em comando. Ele achava que
conhecia bem as próprias capacidades e que esse papel lhe caía melhor. Você consegue imaginar uma
pessoa ambiciosa recusando a chance de avançar em suas responsabilidades porque quer estar preparada
para elas? Isso é mesmo tão louco assim?
Não que Sherman sempre tenha sido o modelo perfeito do comedimento e da ordem. No início da
guerra, encarregado de defender o estado de Kentucky com um número insuficiente de tropas, sua
obsessão e sua tendência de duvidar de si mesmo se uniram de um modo perverso. Gritando furiosamente
por estar sem recursos, incapaz de enxergar para além dos próprios medos, paranoico em relação aos
movimentos do inimigo, ele perdeu a compostura e falou de maneira imprudente com muitos jornalistas.
Na controvérsia que se seguiu, foi temporariamente removido do comando. Precisou de semanas para se
recuperar. Foi um dos poucos momentos em que sua carreira chegou ao limiar da catástrofe, pois de resto
sua trajetória se caracterizou pela ascensão contínua.
Foi depois desse breve tropeço — e de ter aprendido com ele — que Sherman de fato deixou sua
marca. Por exemplo, durante o cerco de Fort Donelson, ele ocupou, tecnicamente, um posto superior ao
do general Ulysses S. Grant. Enquanto os outros generais de Lincoln brigavam entre si por poder e
reconhecimento pessoal, Sherman abriu mão da patente, preferindo de bom grado ajudar e fortalecer
Grant em vez de dar ordens. “Este é o seu show”, disse Sherman a Grant em um bilhete que acompanhou
o carregamento de suprimentos; “se eu puder ajudar de algum modo, mande me chamar.” Juntos, eles
foram os responsáveis por uma das primeiras vitórias da União na guerra.
Construindo seu sucesso, Sherman começou a promover sua famosa Marcha ao Mar — um plano
estrategicamente corajoso e audaz, nascido não de um gênio criativo, mas sim do conhecimento profundo
da topografia que ele explorara e estudara como um jovem oficial no que outrora era considerado um
inútil posto avançado nos confins do país.
Sherman, então, tinha confiança em pontos que antes tratara com cautela. Mas, ao contrário de tantos
outros que alimentam grandes ambições, ele conquistou essa aptidão. Enquanto traçava um caminho de
Chattanooga a Atlanta, e depois de Atlanta até o mar, ele se esquivou de batalhas tidas como inevitáveis,
uma após outra. Qualquer estudante da história militar pode enxergar como a mesma invasão, se motivada
pelo ego e não por um senso exato de propósito, poderia ter tido um fim muito diferente.
Seu senso de realidade lhe permitiu ver um caminho através do Sul que os outros julgavam impossível.
Toda a sua teoria de guerra de manobra repousava na decisão de evitar deliberadamente ataques frontais
ou demonstrações de força na forma de batalhas campais, bem como ignorar as críticas feitas com o
objetivo de provocar uma reação. Ele não prestou atenção em nada disso e se ateve ao seu plano.
No fim da guerra, Sherman era um dos homens mais famosos dos Estados Unidos, e mesmo assim não
buscou cargos públicos, não demonstrou interesse pela política, desejando apenas fazer seu trabalho e um
dia se aposentar. Dispensando os constantes elogios e atenções característicos de tamanho sucesso,
escreveu um alerta para seu amigo Grant: “Seja natural, seja você mesmo, e essas lisonjas serão como a
brisa passageira do mar em um dia quente de verão.”
Um dos biógrafos de Sherman captou o homem e suas realizações únicas em uma passagem notável. É
por causa dela que ele serve de modelo nesta fase da nossa escalada.
Entre os homens que ascendem à fama e à liderança, podemos reconhecer dois tipos: aqueles que acreditam em si mesmos desde o berço e aqueles em que isso se desenvolve lentamente, dependendo de realizações concretas. Para os homens do último tipo, seu próprio sucesso é uma surpresa constante, e seus frutos são os mais deliciosos, ainda que sejam saboreados de maneira prudente e com a desconfiança inquietante de que tudo não passa de um sonho. Nessa dúvida está a verdadeira modéstia, e não a dissimulação da autodepreciação insincera, mas a modéstia da “moderação”, no sentido grego. É aprumo, não pose.
Devemos nos perguntar: se a crença em si mesmo não se baseia em realizações concretas, então em
que se baseia? Quando estamos apenas começando, muitas vezes a resposta é em nada. Ego. E é por isso
que assistimos com tanta frequência a ascensões incríveis seguidas de quedas calamitosas.
Então, que tipo de pessoa você será?
Como todos nós, Sherman precisou equilibrar talento, ambição e intensidade, sobretudo quando era
jovem. Balancear com proeza essa equação foi, em grande parte, o motivo por que ele conseguiu
administrar o sucesso que no final das contas modificou sua vida.
É provável que isso soe estranho. Enquanto Isócrates e Shakespeare desejavam que fôssemos
independentes, automotivados e governados por princípios, a maioria de nós foi treinada para fazer o
oposto. Nossos valores culturais quase tentam nos tornar dependentes da validação e da ideia de
merecimento e governados por nossas emoções. Durante uma geração, pais e professores se
concentraram no desenvolvimento da autoestima de todos. Daí em diante, os temas de nossos gurus e de
nossas figuras públicas tinham como objetivo quase que exclusivo nos inspirar, encorajar e garantir que
poderíamos fazer qualquer coisa que nos passasse pela cabeça.
Na realidade, isso nos enfraquece. Sim, você, com todo seu talento e potencial de “menino prodígio”
ou de “garota que vai longe”. Damos por certo o seu potencial. Foi por isso que você conseguiu a vaga na
universidade de prestígio que hoje frequenta, que conseguiu o financiamento para o seu negócio, que foi
contratado ou promovido, que qualquer oportunidade que possa ter tido caiu em seu colo. Como disse
Irving Berlin: “O talento é o ponto de partida.” A questão é: você vai conseguir extrair o máximo dele?
Ou ele será seu pior inimigo? Você vai apagar a chama que estava começando a crescer?
O que vemos em Sherman é a conexão profunda de um homem com a realidade. Era um homem que
veio do nada e realizou coisas grandiosas, sem nunca considerar as honras que recebeu como um direito
seu. Na verdade, ele costumava ceder as honras aos outros, e estava mais do que satisfeito em contribuir
com um time vencedor, mesmo que isso implicasse em menos crédito ou fama para si mesmo. É triste
pensar que gerações de jovens aprenderam sobre o glorioso ataque de cavalaria de Pickett, um ataque
dos Confederados que fracassou, enquanto o modelo de Sherman, um realista tranquilo e nada
glamouroso, foi esquecido — ou, pior ainda, difamado.
Pode-se dizer que a capacidade de autoavaliar nossas próprias habilidades é o maior talento de todos.
Sem ela, o aperfeiçoamento se torna impossível. E, sem dúvidas, o ego sempre dificulta cada passo que
se dá nesse sentido. É claro que é mais agradável nos concentrarmos em nossos talentos e pontos fortes,
mas aonde isso nos leva? A arrogância e a concentração exclusiva no “eu” inibem o crescimento. O
mesmo pode ser dito da fantasia e da “visão”.
Nesta etapa, você deve praticar olhar para si mesmo a uma pequena distância, cultivando a capacidade
de enxergar além dos próprios pensamentos. O distanciamento de si mesmo é um antídoto natural contra o
ego. É fácil se envolver emocionalmente e se encantar com o próprio trabalho. Todo e qualquer
narcisista pode fazer isso. O que é raro não é o talento, a habilidade ou a confiança em seu estado bruto,
mas a humildade, a diligência e o autoconhecimento.
Para que seu trabalho seja verdadeiro, ele precisa provir da verdade. Se você deseja que seu sucesso
seja mais do que uma centelha efêmera, precisa estar preparado para se concentrar a longo prazo.
Aprenderemos que, apesar de pensarmos grande, precisamos agir e viver pequeno se quisermos
conquistar o que buscamos. Porque, se nos concentrarmos na ação e na educação, deixando de lado a
validação e o status, nossa ambição não será grandiosa, mas iterativa — um pé na frente do outro,
aprendendo, crescendo e se dedicando.
Com sua agressividade, intensidade, autocentramento e autopromoção sem limites, nossos concorrentes
não se dão conta do risco a que submetem os próprios esforços (para não mencionar a sanidade). Nós
desafiaremos o mito do gênio confiante, que não conhece a dúvida nem a introspecção, assim como
desafiaremos o mito do artista sofrido e torturado que precisa sacrificar a saúde em nome do trabalho.
Enquanto eles estão desconectados da realidade e das outras pessoas, nós estaremos profundamente
conectados, conscientes e aprendendo com tudo.
Fatos são melhores do que sonhos, como disse Churchill.
Embora compartilhemos com muitos outros uma visão de grandeza, compreendemos que nosso
caminho rumo a ela é muito diferente do deles. No rastro de Sherman e Isócrates, entendemos que o ego é
nosso inimigo nessa jornada, de modo que, quando alcançarmos o sucesso, ele não nos afundará, mas nos
tornará mais fortes.
BLÁ, BLÁ, BLÁ
Aqueles que sabem não falam. Aqueles que falam não sabem.
— LAO TZU
Em sua famosa campanha de 1934 para o governo da Califórnia, o autor e ativista Upton Sinclair tomou
uma atitude incomum. Antes da eleição, publicou um pequeno livro intitulado I, Governor of California
and How I Ended Poverty [Eu, governador da Califórnia, e como acabei com a pobreza], em que
resumia, no pretérito, as brilhantes políticas que empregara como governador… cargo que ainda não
conquistara.
Foi uma estratégia nada ortodoxa para uma campanha igualmente diferente, cujo intuito era lançar mão
do ponto mais forte de Sinclair — como autor, ele sabia que conseguiria se comunicar com o público de
um jeito que os outros não conseguiam. Acontece que a campanha de Sinclair não parecia nada
promissora quando ele publicou o livro. Mas os observadores da época identificaram imediatamente o
efeito que a publicação teve — não nos eleitores, mas no próprio Sinclair. De acordo com as palavras de
Carey McWilliams ao escrever a respeito da campanha do amigo quando ela já degringolava: “Upton não
apenas percebeu que seria derrotado, mas pareceu ter perdido o interesse pela campanha. Naquela vívida
imaginação que tinha, ele já havia atuado no papel de ‘Eu, governador da Califórnia…’, então por que se
incomodar em vivê-lo na vida real?”
O livro foi um campeão de vendas, enquanto a campanha foi um fracasso. Sinclair perdeu por algo
como 250 mil votos (uma margem de mais de 10 pontos percentuais); ele foi dizimado no que,
provavelmente, foi a primeira eleição moderna. Não há dúvidas do que aconteceu: sua fala passou à
frente da campanha, e a determinação para chegar ao outro lado acabou. A maioria dos políticos não
escreve livros como aquele, mas se precipita da mesma maneira.
É uma tentação que todos conhecemos: a de substituir a ação por palavras e por alarde.
Uma caixa de texto em branco: “No que você está pensando?”, pergunta o Facebook. “O que está
acontecendo?”, questiona o Twitter. Tumblr. LinkedIn. Nossa caixa de e-mails, nossos iPhones, a seção
de comentários no fim do artigo que você acabou de ler.
Espaços em branco, implorando para serem preenchidos com pensamentos, fotos e histórias.
Preenchidos com o que vamos fazer, com as coisas que deveríamos ou poderíamos ser, com o que
esperamos que aconteça. É a tecnologia pedindo, provocando, solicitando a fala.
Quase universalmente, o tipo de performance que apresentamos nas redes sociais é positiva. Na
maioria das vezes, é “Vou contar como as coisas estão indo bem. Veja como sou incrível”. E raramente é
a verdade: “Sinto medo. Estou com dificuldades. Não sei.”
No início de qualquer jornada, nós nos sentimos animados e nervosos. Então, buscamos conforto
externo, e não interno. Todos nós temos um lado fraco que — feito um sindicato — não é exatamente malintencionado, mas, ainda assim, no final do dia quer receber o máximo de crédito e atenção pública por
ter feito o mínimo. Nós chamamos esse lado de ego.
Emily Gould, escritora e antiga blogueira do Gawker — se já existiu alguma Hannah Horvath na vida
real, é ela —, percebeu isso durante sua luta de dois anos para publicar um romance. Embora tenha
conseguido um acordo de seis dígitos para a publicação do livro, ela ficou estagnada. Por quê? Estava
ocupada demais “passando muito tempo na Internet”.
Na verdade, não consigo me lembrar de mais nada que eu tenha feito em 2010. Eu publicava no Tumblr, escrevia tweets, rolava a barra. Isso não me rendeu nenhum dinheiro, mas parecia trabalho. Eu justificava esses hábitos para mim mesma de várias maneiras. Estava construindo a minha marca. Blogar era um ato criativo — até mesmo a ação de “curadoria” de republicar o post de outra pessoa era um ato criativo, de certa forma. Isso era a única coisa criativa que eu estava fazendo.
Em outras palavras, ela fez o que muitos de nós fazemos quando estamos assustados ou intimidados
por um projeto: ela fez tudo, exceto se concentrar no necessário. O romance propriamente dito, que ela
deveria estar escrevendo, ficou completamente estacionado. Durante um ano.
Era mais fácil falar sobre escrever, fazer as coisas empolgantes relacionadas à arte, à criatividade e à
literatura, do que se comprometer com o ato em si. E ela não é a única. Alguém recentemente publicou um
livro chamado Working On My Novel [Trabalhando em meu livro] cheio de publicações das redes
sociais de escritores que obviamente não estão trabalhando em seus livros.
Como tantos atos criativos, escrever é difícil. Sentar-se, começar a escrever, ficar furioso consigo
mesmo, furioso porque o material não está bom o suficiente e você não está bom o suficiente. Aliás,
muitos empreendimentos valiosos que iniciamos são dolorosamente difíceis, seja programar uma nova
startup ou dominar uma profissão. Mas ficar de blá-blá-blá é sempre fácil.
Parece que nós pensamos que o silêncio é um sinal de fraqueza, que ser ignorado equivale à morte (o
que é verdade, no que diz respeito ao ego). Então, nós falamos, falamos, falamos como se a nossa vida
dependesse disso.
Na verdade, silêncio é força — sobretudo no início de uma jornada. Como alerta o filósofo
Kierkegaard (por acaso, alguém que detestava os jornais e sua ladainha): “A mera tagarelice antecipa a
fala real, e expressar o que ainda está no pensamento enfraquece a ação por antecipá-la.”
E é isso que é tão traiçoeiro na fala. Qualquer um pode falar de si. Até uma criança sabe jogar
conversa fora e tagarelar. A maioria das pessoas se sai bem na promoção e nas vendas. Então, o que é
escasso e raro? O silêncio. A capacidade de, deliberadamente, manter-se fora da conversa e subsistir
sem a sua validação. O silêncio é o descanso dos fortes e dos que têm confiança em si.
Sherman tinha uma boa regra que tentava seguir: “Nunca se justifique pelo que pensa ou faz, a não ser
que seja preciso. Talvez, depois de algum tempo, uma explicação melhor simplesmente apareça na sua
cabeça.” O grande jogador de beisebol e futebol americano Bo Jackson decidiu que queria conquistar
duas coisas como atleta na Universidade de Auburn, no Alabama: ele ganharia o Troféu Heisman e seria
o primeiro convocado pela NFL. Você sabe a quem ele contou isso? Só à namorada.
A flexibilidade estratégica não é o único benefício do silêncio enquanto os outros tagarelam. Também
é psicologia. O poeta Hesíodo tinha isso em mente quando disse: “O maior tesouro de um homem é uma
língua econômica.”
A fala nos exaure. Falar e fazer brigam pelos mesmos recursos. Pesquisas mostram que, embora a
visualização de um objetivo seja importante, depois de algum tempo nossa mente começa a confundi-la
com o progresso propriamente dito. O mesmo se aplica à verbalização. Observou-se que até mesmo o
hábito de falarmos sozinhos enquanto trabalhamos em problemas difíceis diminui a concentração e a
chance de fazermos descobertas importantes. Depois de passarmos muito tempo pensando, explicando e
falando sobre uma tarefa, somos levados a pensar que estamos mais perto de sua solução. Ou pior,
quando as coisas ficam difíceis, achamos que podemos descartar todo o projeto, porque já investimos
tudo o que podíamos nele, apesar de isso, obviamente, não ser verdade.
Quanto mais difícil a tarefa, mais incerto será o resultado, mais custosa será a fala e mais longe
estaremos de uma responsabilização concreta. A fala esgota a energia de que necessitamos
desesperadamente para conquistar o que Steven Pressfield chama de “Resistência” — o obstáculo
existente entre nós e a expressão criativa. O sucesso requer 100% dos nossos esforços, e a fala filtra
parte desses esforços antes mesmo de podermos usá-los.
Muitos de nós sucumbem a essa tentação — sobretudo quando nos sentimos sobrecarregados ou
estressados, com muito trabalho pela frente. Em nossa fase de construção, a resistência será uma fonte
constante de desconforto. Falar — ouvir a si mesmo ou se apresentar na frente de uma plateia — é quase
uma terapia. Acabei de passar quatro horas falando sobre determinada coisa. Isso não conta? A
resposta é não.
Fazer um bom trabalho é uma batalha. É exaustivo, é desmoralizante, é assustador — nem sempre, mas
podemos nos sentir assim quando estamos mergulhados nele. Falamos para preencher o vazio e a
incerteza. “O vazio”, disse Marlon Brando, um ator bastante calado, se é que isso existe, “é aterrorizante
para a maioria das pessoas”. É quase como se fôssemos atacados ou confrontados pelo silêncio,
especialmente quando permitimos que o ego nos engane ao longo dos anos. E isso é prejudicial por uma
razão: os melhores trabalhos e as melhores obras de arte vêm da luta contra o vazio, de enfrentá-lo em
vez de fugir dele. A questão é: ao se encontrar diante do seu desafio particular — seja a pesquisa em uma
nova área, fundar um novo negócio, produzir um filme, conquistar um mentor, promover uma causa
importante —, você busca o alívio da fala ou encara a luta?
Pense nisto: a voz de uma geração não se proclama como tal. Na verdade, pensando bem, percebemos
quão pouco essa voz parece falar. É uma canção, é um discurso, é um livro — o volume do trabalho pode
ser pequeno, mas o que há dentro dele é concentrado e impactante.
São pessoas que trabalham em silêncio e isoladas. Elas transformam sua inquietude interior em um
produto — e, eventualmente, em tranquilidade. Ignoram o impulso de buscar o reconhecimento antes da
ação. Não falam muito. Nem dão espaço para a sensação de que quem está diante do público, gozando
dos holofotes, de algum modo está saboreando o melhor lado da moeda. (Não está.) Essas pessoas estão
ocupadas demais trabalhando para fazer qualquer outra coisa. Quando falam, é porque merecem.
A única relação entre a fala e o trabalho é que uma mata o outro.
Deixe que os outros se congratulem entre si enquanto você está de volta ao laboratório, ou na
academia, ou procurando um emprego. Tape esse buraco — aquele mesmo, bem no meio do seu rosto —
que pode sugar a sua força vital. Observe o que acontece. Observe quão melhor você ficará.
SER OU FAZER?
Neste período de formação, a alma ainda não foi maculada pela guerra contra o mundo. Ela repousa como um bloco de puro mármore de Paros, pronto para ser moldado — mas em quê?
— ORISON SWETT MARDEN
Um dos estrategistas e profissionais mais famosos da arte da guerra moderna é alguém sobre quem a
maioria das pessoas nunca ouviu falar. Seu nome é John Boyd.
Ele era um ótimo piloto de caça, mas era melhor ainda como professor e pensador. Depois de ter
voado na Coreia, ele se tornou o principal instrutor da Fighter Weapons School, uma escola de elite na
Base Aérea de Nellis. Era conhecido como “Quarenta Segundos Boyd” — o que significava que podia
derrotar qualquer oponente, em qualquer posição, em menos de quarenta segundos. Alguns anos depois,
Boyd foi convocado sem alarde pelo Pentágono, onde seu verdadeiro trabalho teve início.
Por um lado, o fato de a maioria das pessoas nunca ter ouvido falar de John Boyd não surpreende. Ele
nunca publicou nenhum livro e escreveu um único artigo acadêmico. Apenas alguns vídeos seus
sobreviveram, e ele foi raramente citado na mídia. Apesar de trinta anos de um serviço impecável, Boyd
não passou da patente de coronel.
Por outro lado, suas teorias transformaram a guerra de manobra em quase todos os departamentos das
forças armadas, e não apenas em vida, mas mais ainda depois de sua morte. Os caças F-15 e F-16, que
reinventaram as aeronaves militares modernas, foram seus projetos de estimação. Sua principal atuação
era como conselheiro; por meio de instruções lendárias, ele ensinou e treinou quase todos os principais
pensadores militares de uma geração inteira. Sua colaboração com os planos de guerra para a Operação
Escudo do Deserto veio em uma série de encontros pessoais com o secretário de Defesa, e não por
intermédio de canais públicos ou oficiais. Seu principal meio de levar uma mudança a cabo era pela
coleção de pupilos que orientava, protegia, ensinava e inspirava.
Não existem bases militares batizadas em sua homenagem. Nenhum navio de guerra. Ele se aposentou
acreditando que seria esquecido, e possuía apenas um pequeno apartamento e uma pensão em seu nome.
É quase certo que tivesse mais inimigos do que amigos.
Um caminho incomum. E se essa trajetória tiver sido deliberada? E se o tornou mais influente? Quão
louco isso seria?
Na verdade, Boyd estava simplesmente aplicando a mesma lição que tentava ensinar a cada jovem
promissor tomado sob sua asa, o qual ele sentia ter potencial para se tornar alguma coisa importante, que
faria alguma diferença. As estrelas em ascensão que ele ensinou provavelmente têm muito em comum
conosco.
O discurso que Boyd fez para um pupilo em 1973 deixa isso claro. Pressentindo o que sabia que seria
uma encruzilhada na vida do jovem oficial, Boyd o chamou para uma reunião. Como muitos profissionais
de alto desempenho, o soldado era inseguro e impressionável. Ele queria ser promovido e se sair bem.
Era uma folha que podia ser soprada em qualquer direção, e Boyd sabia disso. Então, naquele dia, ele
ouviu um discurso que Boyd repetiria várias vezes, até se tornar uma tradição e um rito de passagem para
uma geração de líderes militares transformadores.
“Tigre, um dia você chegará a uma bifurcação na estrada”, disse Boyd. “E precisará decidir para que
lado quer ir.” Usando as mãos para ilustrar, Boyd indicou as duas direções. “Se quiser ir para aquele
lado, poderá se tornar alguém. Você precisará fazer acordos e virar as costas para seus amigos. Mas será
um membro do clube, será promovido e receberá boas missões.” Em seguida, Boyd fez uma pausa para
deixar clara a alternativa: “Ou”, disse ele, “você pode ir para aquele lado e fazer alguma coisa —
alguma coisa por seu país, por sua Força Aérea e por si mesmo. Se decidir que quer fazer alguma coisa,
talvez você não seja promovido e talvez não receba boas missões, e com certeza não será um dos
favoritos de seus superiores. Mas não vai precisar se comprometer. Será leal a seus amigos e a si mesmo.
E seu trabalho fará diferença. Ser alguém ou fazer alguma coisa. Na vida, muitas vezes nos deparamos
com um chamado. É aí que precisamos fazer uma escolha.”
E então Boyd concluiu com palavras que guiariam aquele jovem e muitos de seus colegas pelo resto de
suas vidas. “Ser ou fazer? Para que lado você vai?”
O que quer que você busque na vida, a realidade não demora a interferir no idealismo de sua
juventude. A realidade pode ter muitos nomes e formas: incentivos, compromissos, reconhecimento e
políticas. Em todos os casos, ela pode rapidamente nos desviar de fazer para ser. De conquistar para
fingir. O ego alimenta essa ilusão a cada passo do caminho. Era por isso que Boyd queria que os jovens
vissem que, se não tomarmos cuidado, até mesmo o cargo que desejamos ocupar é capaz de nos
corromper.
Como evitar o desvio? Muitas vezes, nós nos apaixonamos por uma imagem do que acreditamos ser o
sucesso. No mundo de Boyd, a quantidade de estrelas em seu ombro ou a natureza de uma tarefa e sua
localização poderiam facilmente ser confundidas como um indicador de conquista. Para outras pessoas, é
o título do emprego, a faculdade de administração que frequentaram, o número de assistentes que
possuem, a localização de sua vaga no estacionamento, os subsídios que recebem, seu acesso ao CEO, o
tamanho de seu contracheque ou o número de fãs que têm.
As aparências enganam. Ter autoridade não é a mesma coisa que ser uma autoridade. Ter o direito e
ser direito tampouco são a mesma coisa. Ser promovido não significa, necessariamente, que se está
fazendo um bom trabalho, ou que sequer se tenha merecido a promoção (eles chamam isso de fracasso
ascendente em alguns sistemas burocráticos). Impressionar as pessoas é algo completamente diferente
de ser de fato impressionante.
Então, com quem você está? Que lado escolherá? Essa é a escolha que a vida nos obriga a fazer.
Boyd tinha outro exercício. Ao visitar ou conversar com grupos de oficiais da Força Aérea, ele
escrevia em letras grandes no quadro-negro: DEVER, HONRA, NAÇÃO. Em seguida, riscava essas
palavras e as substituía por três outras: ORGULHO, PODER, GANÂNCIA. O que ele queria dizer era
que muitos dos sistemas e das estruturas das forças militares — aqueles pelos quais os soldados navegam
a fim de seguir em frente — podem corromper os próprios valores a que eles deveriam servir. O
historiador Will Durant tinha um dito espirituoso: uma nação nasce estoica e morre epicurista. Essa é a
triste verdade que Boyd ilustrava, a de como valores positivos azedam.
Quantas vezes vimos isso acontecer durante nossas vidas — nos esportes, nos relacionamentos, com
projetos ou pessoas que são extremamente importantes para nós? É isso que o ego faz. Ele risca o que
importa e substitui pelo que não tem importância.
Muitas pessoas querem mudar o mundo, e isso é bom. Você quer ser o melhor no que faz. Ninguém
quer ser um profissional de fachada. Mas, em termos práticos, quais das três palavras que Boyd escrevia
no quadro-negro vão fazer você chegar lá? Quais você está praticando agora? Quais o estão alimentando?
A decisão que Boyd nos apresenta se resume a um propósito. Qual é o seu propósito? Você está aqui
para fazer o quê? Pois o propósito nos ajuda a responder com muita facilidade à pergunta “Ser ou
fazer?”. Se o que importa é você — sua reputação, sua inclusão, sua tranquilidade pessoal —, o caminho
está claro: diga aos outros o que eles querem ouvir. Busque atenção, e não o trabalho discreto, porém
importante. Diga sim às promoções e siga o caminho que as pessoas talentosas costumam seguir na
indústria ou no campo que escolheram. Cumpra com seus deveres, marque os quadradinhos, dedique-se e
deixe as coisas essencialmente como são. Busque sua fama, seu salário, seu título, e saboreie tais
conquistas.
“Um homem é moldado pelo trabalho que faz”, afirmou Frederick Douglass. E o fez com conhecimento
de causa, pois foi um escravo e viu o que a escravidão fazia com todos os envolvidos, inclusive os
próprios donos de escravos. Depois que se tornou um homem livre, Douglass viu que o mesmo se
aplicava às escolhas que as pessoas faziam em suas carreiras e em suas vidas. O que você escolhe fazer
com seu tempo e o que escolhe fazer para ganhar dinheiro moldam você. O caminho do egocêntrico
requer, como sabia Boyd, muito comprometimento.
Se seu propósito é algo maior do que você — realizar algo, provar algo para si —, então, de repente,
tudo se torna ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil. Mais fácil no sentido de que você agora sabe o
que precisa fazer e o que é importante para você. As outras “escolhas” desaparecem, visto que, na
realidade, não são realmente escolhas. São distrações. O que importa é fazer, e não o reconhecimento.
Mais fácil no sentido de que você não precisa se comprometer. Mais difícil, porém, porque cada
oportunidade — não importa quão gratificante ou recompensadora seja — deve ser avaliada de acordo
com diretrizes rigorosas: Isto me ajudará no que me dispus a fazer? Isto permitirá que eu faça o que
preciso fazer? Estou sendo egoísta ou altruísta?
Nesse caminho, a pergunta não é “O que você quer ser na vida?”, mas “O que você quer conquistar na
vida?”. Deixando de lado o interesse egoísta, esse caminho pergunta: a que chamado isso atende? Quais
princípios governam minhas escolhas? Eu quero ser como todo mundo ou quero fazer algo diferente?
Em outras palavras, é mais difícil porque tudo pode parecer um comprometimento.
Embora nunca seja tarde demais, quanto mais cedo você fizer essas perguntas a si mesmo, melhor.
Boyd, sem dúvida, mudou e aperfeiçoou sua área de um modo que quase nenhum teórico havia feito
desde Sun Tzu ou Von Clausewitz. Ele era conhecido como Genghis John por causa da maneira como
nunca deixava obstáculos ou oponentes impedi-lo de fazer o necessário. Suas escolhas tinham um custo.
Ele também era conhecido como o coronel do gueto por causa de seu estilo de vida frugal. Morreu com
uma gaveta cheia de cheques não descontados dados a ele por empreiteiros particulares, cuja somatória
chegava a milhares de dólares e que Boyd considerava subornos. O fato de ele nunca ter passado da
patente de coronel não foi uma decisão sua: Boyd foi várias vezes impedido de receber promoções. Foi
esquecido pela história como punição pelo trabalho que fez.
Pense nisso na próxima vez que se sentir merecedor de alguma coisa, na próxima vez que confundir seu
sonho com fama. Pense em como pode estar à altura de um homem como esse.
Pense nisso sempre que se deparar com a escolha: preciso disso? Ou é só o meu ego falando? Você
está pronto para tomar a decisão certa? Ou os prêmios ainda enchem seus olhos?
Ser ou fazer? A vida é uma escolha interminável.
TORNE-SE UM APRENDIZ
— PLACA NA ACADEMIA DE TREINAMENTO DO CORPO DE BOMBEIROS DE NOVA YORKNão deixe que o fantasma de ninguém volte para dizer que meu treinamento não me serviu.
Era abril, no começo dos anos 1980, quando um único dia se tornou ao mesmo tempo o pesadelo de um
guitarrista e o trabalho dos sonhos de outro. Sem aviso, os membros da ainda desconhecida banda
Metallica se reuniram antes de uma sessão de gravação que haviam marcado em um armazém decadente
de Nova York e informaram ao guitarrista Dave Mustaine que ele estava fora. Depois de poucas palavras,
eles lhe entregaram uma passagem de ônibus de volta para São Francisco.
No mesmo dia, um jovem e competente guitarrista chamado Kirk Hammett, com pouco mais de vinte
anos e membro de uma banda chamada Exodus, ficou com a vaga. Alguns dias depois de cair de
paraquedas no meio de uma nova vida, ele fez seu primeiro show com o Metallica.
Era provável que esse fosse o momento pelo qual Hammett esperara a vida toda. E, de fato, era.
Embora conhecido apenas em pequenos círculos na época, o Metallica era um grupo que parecia
destinado a ir longe. Sua música já havia começado a desafiar os limites do thrash metal, e o estrelato
batia à porta. Em poucos anos, eles seriam uma das maiores bandas do mundo, tendo chegado a vender
mais de cem milhões de discos.
Foi por volta dessa época que Hammett descobriu algo que deve ter sido desmoralizante: apesar dos
anos que havia passado tocando e de ter sido convidado para se juntar ao Metallica, ele não era tão bom
quanto gostaria de ser. Em São Francisco, cidade onde morava, Kirk procurou um professor de guitarra.
Em outras palavras, apesar de ter entrado para o grupo dos seus sonhos e de ter literalmente se tornado
um profissional, ele insistia que precisava de mais instrução — que ainda era um aprendiz. O professor
que ele procurou era famoso por ser um mestre dos mestres e por ter trabalhado com prodígios musicais
como Steve Vai.
Joe Satriani, o cara que Hammett escolheu como instrutor, viria a ser reconhecido como um dos
melhores guitarristas de todos os tempos e venderia mais de dez milhões de discos com sua música única
e virtuosa. Ensinando em uma pequena loja de instrumentos musicais de Berkeley, o estilo de tocar de
Satriani fazia dele uma escolha incomum para Hammett. Mas essa era a intenção: Kirk desejava aprender
o que não sabia, reforçar seu entendimento básico a fim de poder continuar explorando o gênero musical
que agora tinha a chance de praticar.
Satriani esclarece o que faltava a Hammett — certamente, não talento. “O principal lance com Kirk
(…) era que ele era um guitarrista muito bom quando chegou. Ele já estava tocando a guitarra principal
(…), já era o solista. Tinha uma ótima mão direita, conhecia a maioria dos acordes, só não tinha
aprendido a tocar em um ambiente que lhe ensinasse todos os nomes e não sabia como conectar tudo.”
Isso não quer dizer que as aulas foram pura diversão. Na verdade, Satriani explicou que o diferencial
de Hammett era sua disposição para suportar o tipo de instrução que outros não suportariam. “Ele era um
bom aluno. Muitos de seus amigos e contemporâneos saíam reclamando, achando que eu era um professor
muito durão.”
O sistema de Satriani era claro: haveria aulas semanais, lições a serem aprendidas e, se não fosse
assim, Hammett estaria desperdiçando o tempo de todo mundo e não precisaria mais voltar. Assim, nos
dois anos que se seguiram, Kirk fez o que Satriani pediu, retornando a cada semana para avaliações
objetivas, para ser julgado e para treinar arduamente técnica e teoria musical no instrumento que logo
estaria tocando na frente de milhares e, depois, dezenas de milhares e, por fim, centenas de milhares de
pessoas. Mesmo depois desse período de dois anos de estudo, ele levaria para Satriani os licks e riffs
que estava trabalhando com a banda, aprendendo a refrear o instinto por mais, aperfeiçoando a
capacidade de fazer melhor com menos notas e se concentrando em sentir essas notas e expressá-las de
maneira adequada. A cada vez, Kirk melhorava como instrumentista e como artista.
O poder de ser um aprendiz não significa apenas ter um período prolongado de instrução, mas também
coloca o ego e a ambição nas mãos de outra pessoa. Um tipo de teto é imposto ao ego, pois o indivíduo
sabe que não é melhor do que o “mestre” com quem aprende. Não está nem perto disso. Você respeita o
mestre, você se subordina. Não pode fingir ou enganá-lo. Não dá para “trapacear” em um processo
educativo; não existe outro atalho a não ser aprender todos os dias. Se você não aprender, está fora.
Não gostamos de pensar que alguém é melhor do que nós. Ou que ainda temos muito a aprender.
Queremos pensar que chegamos ao fim de nosso aprendizado. Queremos estar prontos. Estamos ocupados
e sobrecarregados. Por isso, realocar os próprios talentos a um patamar inferior após uma autoavaliação
é uma das coisas mais difíceis de se fazer na vida — mas é quase sempre um componente da maestria.
Fingir conhecimento é um de nossos vícios mais perigosos, pois nos impede de melhorar. Uma
autoavaliação meticulosa é o antídoto para isso.
O resultado, não importa qual seja seu gosto musical, foi que Hammett se tornou um dos grandes
guitarristas de metal do mundo, fazendo com que o thrash metal passasse de um movimento underground a
um gênero musical global. E não apenas isso, mas, por meio dessas aulas, Satriani aperfeiçoou sua
própria técnica e se tornou muito melhor. Tanto o aluno quanto o professor encheriam estádios e
transformariam o cenário musical.
Frank Shamrock, pioneiro das artes marciais mistas (MMA) e várias vezes campeão, tem um sistema
que usa para treinar lutadores e que chama de mais, menos, igual. Ele diz que, se quiser ser grande, cada
lutador deve ter alguém melhor com quem aprender, alguém inferior a quem ensinar e alguém no mesmo
patamar com quem se comparar.
O propósito da fórmula de Shamrock é simples: obter um retorno real e contínuo sobre o que se sabe e
o que não se sabe sob todos os ângulos possíveis. Isso elimina o ego, que nos deixa inflados, o medo, que
nos leva a duvidar de nós mesmos, e qualquer preguiça que possa levar à acomodação. Como Shamrock
disse: “Ideias errôneas sobre si mesmo destroem você. Pessoalmente, jamais deixarei de ser um
aprendiz. Esse é o objetivo das artes marciais, e você precisa usar essa humildade como ferramenta.
Você se coloca abaixo de alguém em quem confia.” Isso começa pela aceitação de que outras pessoas
sabem mais e de que você pode se beneficiar do conhecimento delas, esforçando-se para conseguir isso e
acabando com as ilusões que tem a respeito de si mesmo.
A necessidade de ter uma mentalidade de aprendiz não se restringe à luta ou à música. Um cientista
deve conhecer tanto os princípios básicos da ciência quanto estar atualizado a respeito das últimas
descobertas. Um filósofo deve ter conhecimentos profundos e ao mesmo tempo estar ciente de quão
pouco sabe, tal como Sócrates. Um escritor deve ser versado na literatura clássica, mas também ler e ser
desafiado por seus contemporâneos. Um historiador deve conhecer a história antiga e a história moderna,
assim como sua especialidade. Atletas profissionais têm equipes de técnicos, e até políticos poderosos
têm consultores e mentores.
Por quê? Para se tornarem grandes e continuarem grandes, todos devem saber o que veio antes, o que
está acontecendo agora e o que virá em seguida. Eles devem absorver os fundamentos do seu domínio e o
que os cerca, sem que se tornem fósseis ou parem no tempo. Devem estar sempre aprendendo. Todos nós
devemos nos tornar nossos próprios professores, tutores e críticos.
Pense no que Hammett poderia ter feito, ou o que nós poderíamos ter feito na posição dele se, da noite
para o dia, tivéssemos nos tornado um astro de rock ou algo equivalente a isso em nosso campo de
atuação. A tentação é pensar: consegui. Cheguei aonde queria. Eles expulsaram o outro cara porque ele
não é bom como eu. Eles me escolheram porque eu tenho o que é necessário. Se Hammett tivesse feito
isso, provavelmente nunca teríamos ouvido falar no seu nome ou na banda. Afinal de contas, existem
muitos grupos de metal da década de 1980 que foram esquecidos.
Um verdadeiro aprendiz é como uma esponja: absorve o que acontece ao seu redor, filtra e se segura
no que pode manter. Um aprendiz é autocrítico e automotivado, sempre tentando aperfeiçoar sua
compreensão a fim de poder passar para o próximo tópico, o próximo desafio. Um verdadeiro aprendiz
também é seu próprio professor e seu próprio crítico. Não há espaço para o ego.
Tomemos mais uma vez como exemplo a luta, uma área em que a consciência de si mesmo é
particularmente crucial, já que parte do processo é usar os próprios pontos fortes contra os pontos fracos
do oponente. Se um lutador não é capaz de aprender e praticar todos os dias, se não estiver buscando de
maneira incansável possibilidades de aperfeiçoamento, examinando os próprios pontos fracos e
encontrando novas técnicas de colegas e oponentes para serem assimiladas, será derrubado e destruído.
Não é tão diferente para o restante de nós. Não estamos lutando por ou contra alguma coisa? Você acha
que é o único que espera alcançar seu objetivo? É claro que não acredita que é o único tentando
conquistar aquele anel.
As pessoas costumam ficar surpresas ao descobrirem o quão humildes os aspirantes à grandeza
costumavam ser. Você está dizendo que eles não eram agressivos, convictos, conscientes da própria
grandeza e do seu destino? A realidade é que, embora fossem confiantes, a atitude de eterno aprendiz
manteve esses homens e mulheres humildes.
“É impossível aprender aquilo que consideramos já saber”, disse Epiteto. Você não pode aprender se
acha que já sabe. Não encontrará respostas se for orgulhoso ou presunçoso demais para fazer perguntas.
Não poderá melhorar se estiver convencido de que já é o melhor.
A arte de receber feedback e, principalmente, críticas duras é uma habilidade crucial na vida. Nós não
apenas precisamos aceitar críticas, mas solicitá-las, esforçando-nos para buscar o negativo precisamente
quando nossos amigos, nossos familiares e nosso cérebro nos dizem que estamos nos saindo muito bem.
O ego, no entanto, evita esse tipo de avaliação a todo custo. Quem quer se submeter a um treinamento
para corrigir erros? O ego acredita que já sabe como e quem somos — isto é, acha que somos
espetaculares, perfeitos, gênios e verdadeiramente inovadores. Ele não gosta da realidade e prefere sua
própria análise.
O ego tampouco nos permite uma preparação adequada. Para nos tornarmos o que almejamos, muitas
vezes precisamos de longos períodos de anonimato, sentando e lutando com algum tópico ou paradoxo. A
humildade é o que nos mantém nessa posição, preocupados com o que não sabemos o suficiente e com o
que devemos continuar estudando. O ego nos apressa a chegar ao fim, nos faz pensar que a paciência é
para perdedores (enxergando-a, erroneamente, como fraqueza) e presumir que somos tão bons que
submeter nosso talento às provas do mundo é quase um desaforo.
Quando nos sentamos para pôr nosso trabalho à prova, quando fazemos a primeira apresentação ou nos
preparamos para abrir a nossa primeira loja, quando encaramos a plateia do ensaio com figurino, o ego é
o inimigo — dando um feedback malicioso, desconectado da realidade. Ele nos coloca na defensiva
justamente quando não podemos nos dar a esse luxo. Bloqueia nosso aperfeiçoamento dizendo que não
precisamos nos aperfeiçoar. Então, nós nos perguntamos por que não alcançamos os resultados que
queremos, por que outros são melhores e por que o sucesso deles é mais duradouro.
Hoje, os livros são mais baratos do que nunca. Existem cursos gratuitos. O acesso a professores não é
mais uma barreira — a tecnologia acabou com isso. Não existe desculpa para não se instruir, e porque a
informação que temos diante de nós é bastante vasta, também não existe desculpa para interrompermos
esse processo em momento algum.
Nossos professores na vida não são apenas os pagos, como Hammett pagou a Satriani. Tampouco eles
precisam fazer parte de algum dojo de treinamento, como no caso de Shamrock. Muitos dos melhores
professores estão disponíveis gratuitamente. Eles são voluntários, pois já foram jovens e tiveram os
mesmos objetivos que você. Muitos sequer conhecem os alunos — eles simplesmente são exemplos, ou
até mesmo figuras históricas cujas lições sobrevivem em livros e artigos. Mas o ego nos torna tão
teimosos e hostis ao feedback que afasta ou coloca tais instrutores fora de nosso alcance.
É por isso que o velho provérbio diz: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.
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